A aula do lobista sobre como comprar políticos

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O lobista Ricardo Saud, em seu primeiro depoimento a procuradores que investigam o grupo JBS, no dia 5 de maio, esclareceu que estava ali de "livre e espontânea vontade" e queria confessar seus crimes e delatar seus comparsas "por um dever cívico" e para "ajudar a mudar o país". O procurador explica que aquele depoimento inicial era relativo ao tema "distribuição de propinas". Saud começa, então, a detalhar como a JBS entregou dinheiro ilícito a políticos na campanha de 2014. Inicia sua fala elucidando que o compromisso da empresa naquele ano era principalmente com o PT. E começa a dar uma aula de como funciona o caixa dois e sua negociação em um ano eleitoral. A explicação é tão didática e elucidativa que ÉPOCA publica o vídeo em sua íntegra (assista abaixo).

Contratado pela JBS em 2010 para ser diretor de "relações institucionais", o nome fantasia de lobistas na capital do país, Saud se espantou com a quantidade de dinheiro que passava ao PT a cada nova eleição. Teve uma conversa com o ex-ministro do Planejamento Paulo Bernardo sobre isso. Bernardo, cinicamente, tranquilizou o lobista com o seguinte raciocínio: "O dinheiro não é de vocês. Por que está querendo segurar um dinheiro que não é seu?". O procurador traduz: "Ele quis dizer que o dinheiro que vocês estavam dando vocês tinham recebido do Estado". Saud consente: "Isso". O que está nesse contexto é a enormidade de dinheiro que o JBS recebeu, ao longo dos governos petistas, especialmente do BNDES (só do banco público foram R$ 10 bilhões).

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A narrativa de Saud, de cerca de 34 minutos nesse primeiro depoimento, é límpida. Em 2014, a JBS havia separado R$ 40 milhões para o PT e sua campanha presidencial. O interlocutor era Edinho Silva, tesoureiro da campanha de Dilma Rousseff. A aprovação para que Saud repassasse o dinheiro que Edinho solicitava vinha de Guido Mantega, então ministro da Fazenda, e de Joesley Batista, dono da JBS. Mas as “demandas” – ou pedidos de propina – eram muitas. No total, ao final da eleição, a JBS havia repassado cerca de R$ 350 milhões para o PT. Saud conta minuciosamente como, conforme a corrida eleitoral ficou mais acirrada, comprou, a pedido de Edinho, os partidos da coligação da chapa Dilma-Temer para a eleição em 2014.

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Os partidos que receberam dinheiro da JBS foram o PR, o PP, o PRB e o PCdoB. O interlocutor no PR era o senador Antonio Carlos Rodrigues. Valor da propina: R$ 36 milhões. No PP, era com o senador Ciro Nogueira. Valor: R$ 42 milhões. O PCdoB recebeu R$ 13 milhões ao todo - R$ 3 milhões dos quais foram repassados diretamente ao vereador Orlando Silva, a pedido de João Vaccari. O PRB recebeu pelo presidente do partido e hoje ministro do Desenvolvimento, Marcos Pereira. Valor: R$ 3 milhões. Pereira repassou R$ 1 milhão para o PV. Diante dessa matemática nefasta, Saud destrincha o sistema político brasileiro. "O senhor pode ver que cada partido não serve para nada. É um amontoado de deputado para poder pressionar o governo e negociar tempo para televisão. E cada um tem um valor: pelo número da bancada e tempo de TV."

Em seguida, reforça: "Quero deixar bem claro: nunca foi sozinha a campanha de Dilma. Sempre foi Dilma e Temer, Dilma e Temer. Até que minha proximidade era muito maior com o Temer. Então, quase tudo que eu fazia, não para trair o PT, eu levava ao conhecimento do presidente Temer. E quando foi o pagamento dele, que o PT não liberava dinheiro para ele, ele brigando por esse dinheiro, e ele conseguiu R$ 15 milhões com o PT." É o tipo de declaração que destrói o argumento da defesa do presidente Temer no processo no Tribunal Superior Eleitoral de que a responsabilidade pela campanha era exclusiva da titular da chapa. E coloca ainda mais pressão sobre o presidente e sua versão de que era alheio às contas (ilícitas) naquela eleição.

A reportagem está procurando os citados pelo delator. O presidente Michel Temer não se manifestou sobre as revelações desta sexta-feira. Por meio de nota, o ministro Gilberto Kassab, do PSD, informou que "com relação às menções a repasses durante o processo eleitoral em 2014, cabe apontar que não houve 'compra de partido' e as doações recebidas foram registradas junto à Justiça Eleitoral". A assessoria de imprensa do PR informou que "o PR tem por norma não comentar conteúdos relacionados a investigações em curso ou procedimentos do Ministério Público e do Poder Judiciário". Em nota, o ministro Marcos Pereira, do PRB, informa que "as afirmações constantes da delação de Joesley Batista não são verdadeiras". Procurado, o ex-ministro Guido Mantega não se manifestou. A reportagem não conseguiu contato com as assessorias de PDT, Pros e PP.