“A escassez de recursos naturais vai interferir na cadeia de valor das empresas”

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Tomar ações urgentes contra as mudanças climáticas e escassez de recursos, faz parte da agenda 2030, dentro dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), criados pela Organização das Nações Unidas (ONU). Além disso, a urbanização acelerada, mudanças demográficas, deslocamentos de poder global e avanços tecnológicos fazem parte do futuro da sociedade na Terra, nas próximas décadas. O gerente de sustentabilidade da PricewaterhouseCoopers (PWC), Dominic Schmal, fala sobre os desafios e oportunidades de negócios para as empresas dentro das megatendências globais. As empresas com as melhores políticas ambientais do Brasil já podem se inscrever no Prêmio ÉPOCA Empresa Verde 2017.

ÉPOCA - Qual o papel das empresas para amenizar os efeitos das mudanças climáticas?
Dominic Schmal – Dada a urgência de descarbonização da economia, dentro de uma sociedade em que todos precisam se envolver com a preservação do meio ambiente, o Estado e a comunidade empresarial tem papel fundamental em elaborar e apresentar decisões que podem gerar impactos sociais, ambientais e no desenvolvimento de negócios sustentáveis. Enquanto o Estado deve definir e direcionar políticas de regulações, as empresas funcionam como agentes influenciadores da sociedade. Por ter capital financeiro, o papel delas é desenvolver estratégias de adaptação, que devem contribuir diretamente para diminuir as mudanças climáticas.

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ÉPOCA - As empresas tem feito o suficiente neste sentido?
Dominic Schmal - É difícil mensurar o suficiente, mas a gente também não pode dizer que elas simplesmente não têm feito. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas põe como meta aumentar a temperatura da Terra em somente 2ºC até o fim do século. Para isto, existe um orçamento da diminuição das emissões de carbono. Segundo o estudo The Low Carbon Economy Index 2016, da PWC, o mundo deveria estar descarbonizando a economia em 6,5% ao ano, para não ultrapassar os dois graus da meta até 2100, mas só tem diminuído as emissões em 1,3% por ano. Então, na medida do possível, as empresas têm feito algo, mas de acordo com os desafios globais como um todo, não.

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ÉPOCA - Com as mudanças climáticas e a escassez de recursos, o que as empresas devem fazer para se adaptar?
Dominic Schmal – Primeiramente, reconhecer que a escassez de recursos naturais existe e vai interferir na cadeia de valor. Nos dias de hoje, quando se fala em empresas, não se fala mais em negócios, mas em cadeias, cadeia de alimentos, cadeia de energia, entre outras. Outra estratégia é utilizar a escassez de recursos naturais e as mudanças climáticas como oportunidade de negócios, tendo em vista que até 2050 os níveis de consumo de água vão subir 80%, de energia 40% e de comida mais 30%. Além disso, é preciso repensar a capacidade de conscientização no âmbito externo e interno, como agente influenciador de preservação.

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ÉPOCA - A quais oportunidades de negócios as empresas devem ficar atentas, no que se refere ao crescimento demográfico e a urbanização acelerada, que junto com mudanças climáticas e escassez de recursos fazem parte das megatendências mundiais?
Dominic Schmal – Se o assunto for urbanização, falamos de mobilidade, direcionamentos e seleção de lixo, e escassez de alimentos. A projeção é de que até 2030 o mundo tenha 41 cidades com mais de 10 milhões de habitantes. Cidades maiores consomem mais alimentos e são cidades mais ricas, por exemplo. Haverá também o crescimento da densidade demográfica e o envelhecimento da população. Até 2050, o Brasil deve ter um crescimento de população de 18%, enquanto na Nigéria, continente africano, o este número será superior a 150%. Num geral, metade do crescimento populacional terrestre deve acontecer nos países da África, e isto deve ocasionar também um deslocamento de poder econômico. Teremos uma mudança de negócios e no perfil da classe trabalhadora. Indústrias de varejo, por exemplo, devem prosperar principalmente em países da África.

ÉPOCA - Dentro da 4ª Revolução Industrial, marcada pela convergência das tecnologias digitais, físicas e biológicas, em que constantemente são abordados conceitos como sistemas-ciber-físicos, internet das coisas e computação em nuvem, quais são os maiores desafios empresariais?
Dominic Schmal – Para o consumidor, existe aí uma mudança exponencial do meio de adquirir serviços e construir a vida. O desafio das empresas é o de se transformar utilizando os novos dispositivos, atendendo o que de fato a sociedade precisa e observando também as necessidades do planeta. A tecnologia deve ser bem aproveitada para contribuir com atividades sustentáveis e cabe aos governos e empresas direcionar, como grandes influenciadores, a forma como esses novos recursos devem ser usados.

ÉPOCA - Em sua opinião, como as empresas podem aproveitar as inovações da 4ª Revolução Industrial para ajudar a resolver os desafios da Terra, enquanto criam oportunidades comerciais?
Dominic Schmal – São vários questionamentos dentro deste. Como a internet vai poder diminuir no quadro de emissões de gases poluentes? O que vem a partir das cidades sustentáveis? Como a biotecnologia, nanotecnologia e captura do carbono podem influenciar nas questões de agricultura sustentável? Ao meu ver, as empresas podem, inclusive, resolver os problemas da Terra vendo isso como uma oportunidade de lucro e eficiência, não só para o próprio negócio. Atualmente, nessa tendência, acredita-se que as grandes oportunidades estão voltadas para transportes inteligentes, uso inteligente da terra e cidades inteligentes.

ÉPOCA - No Prêmio ÉPOCA Empresa Verde 2017 categoria de "Mudanças Climáticas", em que se avaliará o inventário de emissões de gases do efeito estufa, por exemplo, o senhor teria observações para as empresas quanto as estratégias de melhorias?
Dominic Schmal - É necessária mais pressão na sociedade quanto a diminuição das emissões de gazes estufa. Nesse sentido, há o reforço dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), das Nações Unidas, com o 13o objetivo, que é tomar medidas urgentes para combater a mudança climática e seus impactos. Além disso, já existem regulações nacionais, nos países que, como o Brasil, seguem os protocolos como o Acordo de Paris. Gostaria de ver como as empresas estão engajadas nesse sentido, quais esforços estão sendo direcionados para essas metas. O que elas estão fazendo que possa trazer uma mudança no negocio e no âmbito de cadeia de valor, sobre o quanto vale o que fazem e o quanto isso pode se replicar, ou influenciar positivamente outros setores e consumidores.