“A marca do PT pode ser a internacionalização das empresas brasileiras”

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O empresário Joesley Batista usou de uma artimanha astuta para se dar bem com o interlocutor: o desafiou a superar o concorrente. Eram meados de 2005, e Batista estava sentado diante de toda a diretoria do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para uma primeira reunião. O ex-ministro Guido Mantega havia acabado de assumir a presidência do BNDES. Batista, então um tímido rapaz caipira do interior de Goiás, argumentou: “O governo Fernando Henrique ficou marcado por promover as exportações. A marca do governo PT pode ser a internacionalização das empresas”. Falava da empresa de sua família, mais especificamente. Naquele tempo, a holding J&F ainda se chamava Friboi e em nada se parecia com o império da carne que se tornou ao longo dos anos. Batista saiu de lá com uma sinalização positiva de Mantega. Entusiasmou-se ao notar que seu plano interessava ao governo.

Meses depois, a família Batista negociou sua primeira grande aquisição no mercado internacional de carnes, a Swift argentina. Bateu de novo no BNDES com um pedido mais concreto: “Olha, aquilo que vocês não acreditavam começou a acontecer, compramos nossa primeira empresa”. Saiu de lá não só entusiasmado, mas com um empréstimo de US$ 80 milhões conseguido a toque de caixa, a ser pago ao longo de cinco anos. Foi a primeira operação que o BNDES fez em apoio à internacionalização da então Friboi. No último dia 3 de maio, em delação premiada, Batista relatou essa história à Procuradoria-Geral da República para contar como se aproximou de Guido, ex-ministro da Fazenda do Partido dos Trabalhadores (PT). Questionado pelo procurador, foi enfático. Afirmou que, se não fosse a proximidade com o Guido, o empréstimo não teria saído com tamanha rapidez.

Como contrapartida aos empréstimos facilitados para a J&F ao longo de anos, Batista depositava valores acertados pontualmente em duas contas no exterior. Mais tarde, afirmou em sua delação, descobriu que o dinheiro seria usado para eleger os ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, além de partidos indicados por Mantega. Segundo Batista, o saldo das duas contas bateu em US$ 150 milhões em 2014.

Batista afirmou em sua delação que tratava dos pagamento com Edinho Silva, então tesoureiro de campanha da ex-presidente Dilma. As duas contas foram ‘zeradas’ em 2014. Segundo Batista, ele foi “explícito” em uma reunião com Dilma sobre a existência desse dinheiro. “Dali eu saí com a certeza de que a Dilma sabia de tudo”, disse Batista à PGR.

Assista ao vídeo:


OUTRO LADO

GUIDO MANTEGA
Procurado, o ex-ministro não se manifestou.

LULA
“Verifica-se nos próprios trechos vazados à imprensa que as afirmações de Joesley Batista em relação a Lula não decorrem de qualquer contato com o ex-Presidente, mas sim de supostos diálogos com terceiros, que sequer foram comprovados. A verdade é que a vida de Lula e de seus familiares foi – ilegalmente – devassada pela Operação Lava Jato. Todos os sigilos – bancário, fiscal e contábil – foram levantados e nenhum valor ilícito foi encontrado, evidenciando que Lula é inocente. Sua inocência também foi confirmada pelo depoimento de mais de uma centena de testemunhas já ouvidas – com o compromisso de dizer a verdade – que jamais confirmaram qualquer acusação contra o ex-Presidente. A referência ao nome de Lula nesse cenário confirma denúncia já feita pela imprensa de que delações premiadas somente são aceitas pelo Ministério Público se fizerem referência – ainda que frivolamente – ao nome do ex-Presidente”.
Cristiano Zanin Martins e Roberto Teixeira

DILMA ROUSSEFF
“A propósito das notícias a respeito das delações efetuadas pelo empresário Joesley Batista, a Assessoria de Imprensa da presidenta eleita Dilma Rousseff esclarece que são improcedentes e inverídicas as afirmações do empresário:
1. Dilma Rousseff jamais tratou ou solicitou de qualquer empresário, nem de terceiros doações, pagamentos ou financiamentos ilegais para as campanhas eleitorais, tanto em 2010 quanto em 2014, fosse para si ou quaisquer outros candidatos.
2. Dilma Rousseff jamais teve contas no exterior. Nunca autorizou, em seu nome ou de terceiros, a abertura de empresas em paraísos fiscais. Reitera que jamais autorizou quaisquer outras pessoas a fazê-lo.
3. Mais uma vez, Dilma Rousseff rejeita delações sem provas ou indícios. A verdade virà à tona”.
Assessoria de Imprensa

EDINHO SILVA
“O coordenador financeiro da campanha presidencial de Dilma em 2014 afirma que esteve por diversas vezes com o empresário Joesley Batista solicitando doações para a campanha, já que essa era sua função, mas todas ocorreram de forma lícita, seguindo rigorosamente a legislação eleitoral. Todas as doações estão declaradas ao Tribunal Superior Eleitoral”.
Assessoria de Imprensa