Bolsa cai 10% na abertura e trava negociações pela primeira vez desde 2008

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Os negócios na Bovespa foram suspensos após queda de 10% do índice à vista, quando o indicador marcava 60.470 pontos, em reação à nova crise política envolvendo o presidente Michel Temer e o senador e presidente do PSDB, Aécio Neves, que já foi afastado do cargo de senador pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Por volta das 11 horas, o pregão foi reaberto.

A queda acentuada ativou o circuit breaker, mecanismo utilizado pela Bovespa que permite, na ocorrência de movimentos bruscos de mercado, o amortecimento e o rebalanceamento das ordens de compra e de venda. Esse instrumento constitui-se em uma “proteção” à volatilidade excessiva em momentos atípicos de mercado.   A ação ON da JBS declinava que 14,74%, a R$ 8,10, antes de o mecanismo de circuit breaker ser acionado.
Até hoje, o mecanismo foi acionado em 16 ocasiões e a paralisação de hoje é a 17ª. Em 1997, em meio a crise da Ásia, os negócios foram interrompidos em 7 e 12 de novembro. Um ano depois, 1998, na crise da Rússia, foram cinco interrupção das operações por baixa de 10%, sendo que no dia 10 de setembro o mecanismo foi acionado duas vezes. Outras três paralisações do pregão foram em 21 de agosto e 4 e 17 de setembro. Depois, novas interrupções ocorreram na crise cambial brasileira, em 1999, quando em 13 e 14 de janeiro o circuit breaker voltou a ser acionado.

Depois de 1999, o mecanismo só voltou a ser acionado em 2008, período marcado pela crise do sistema financeiro que se instalou nos Estados Unidos após o pedido de concordata do banco Lehman Brothers. Naquele ano, o pregão da Bovespa foi interrompido seis vezes, sendo a primeira em 29 de setembro e as outras cinco em outubro, no dia 6 (parou duas vezes), depois nos dias 19, 15 e 22.

Segundo as regras do circuit breaker, quando o Ibovespa atingir limite de baixa de 10% em relação ao índice de fechamento do dia anterior, os negócios na Bovespa, em todos os mercados, serão interrompidos por trinta minutos.

Reabertos os negócios, caso a variação do Ibovespa atinja uma oscilação negativa de 15% em relação ao índice de fechamento do dia anterior, os negócios são interrompidos por uma hora.

O mecanismo não é ativado na última meia hora do pregão. Ocorrendo a interrupção dos negócios na penúltima meia hora de negociação, na reabertura das transações, o horário será prorrogado em, no máximo, mais 30 minutos, sem qualquer outra interrupção, de tal forma que se garanta um período final de negociação de 30 minutos corridos.

O JP Morgan cortou a recomendação para as ações brasileiras para neutra, dizendo que as reformas no país podem estar em risco após as denúncias envolvendo o presidente Michel Temer em um escândalo de corrupção.

Dólar

Após o dólar futuro para junho ter começado a sessão com alta de 5,63%, aos R$ 3,3235, o mercado futuro parou as negociações. O mercado à vista, o dólar também abriu no limite de alta e se mantém no mesmo patamar, aos R$ 3,3137 (+5,73%). “O mercado futuro está no limite de alta e só pode operar dólar junho na compra a R$ 3,3235”, disse um gerente de mesa de derivativos de uma gestora de recursos.

Para tentar conter a escalada do dólar, o Banco Central anunciou que fará um leilão extra de dólar, em uma operação chamada de swap cambial tradicional. A instuição colacará para venda um total de 40.000 contratos (US$ 2 bilhões). Esta é a primeira operação do dia com foco na estabilização do mercado de câmbio.

Além desta operação das 10h30, o BC fará leilão de até 8.000 contratos de swap às 11h30 – neste caso, para rolagem dos vencimentos de junho.

No leilão de abertura, a ações da Petrobrás chegaram a cair quase 50%. Segundo analistas, no entanto, a tendência é de ajuste no decorrer do pregão.

No pré-mercado em Nova York, a maior carteira de fundos do Brasil caía mais de 13% nesta manhã e os American Depositary Receipts (ADRs) de empresas brasileiras também operavam em forte baixa, com os papéis da Petrobras em queda de 14,6%, os do Itaú Unibanco caíam 12,4% e os da Vale recuavam 8,9% um pouco mais cedo. No Japão, o mais popular fundo de índice de ações do Brasil, o Next Funds Ibovespa Linked ETF, fechou em queda de 7,54%.

A forte queda de ativos brasileiros negociados no exterior já dá uma ideia da tormenta que guiará os mercados após o executivo Joesley Batista, do Grupo JBS, ter revelado ontem à noite conversas gravadas em que o presidente Michel Temer dá aval para a compra do silêncio do deputado cassado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), segundo informação do jornal O Globo confirmada pelo Estado. “Tem que manter isso, viu?”, disse Temer sobre mesada milionária a Cunha.

Para Zeina Latif, economista-chefe da XP Investimentos, a expectativa é de uma destruição muito grande de riquezas nos próximos dias, e há um grande risco de investidores estrangeiros deixarem o País para não voltar tão cedo. “O mercado vinha apostando numa melhora de cenário aliada à expectativa de que a reforma da Previdência seria aprovada, mas agora não há mais espaço para isso”, disse. “Tudo o que conseguimos nesse um ano de governo Temer está sendo perdido.”

Segundo Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, o que mais se lamenta é que as reformas vão ficar paradas. “Vamos pagar o preço pela irresponsabilidade do presidente Temer”, disse. Na avaliação de Vale, se não tiver uma solução rápida para essa crise, “o País será jogado novamente para o caos”.

Para o estrategista-chefe da Upside Investor, Renan Sujii, a reação dos mercados financeiros hoje deve ser bastante forte, não podendo ser descartada a possibilidade de intervenção do Banco Central no câmbio e o acionamento do “circuit breaker” no mercado de ações – ferramenta usada para interromper as negociações quando os papéis têm volatilidade muito forte. “Temos um divisor de águas agora, com o agravante de não sabermos o que vem pela frente”, disse.

Reformas

Na avaliação do economista-chefe da Gradual Investimentos, André Perfeito, a nova crise política gera um forte grau de incerteza no mercado e, com isso, a aprovação das reformas econômica, como a da Previdência, está comprometida, em qualquer cenário. Segundo ele, mesmo que Temer deixe o cargo, o próximo presidente não deve ter forças para aprovar a matéria no Congresso. “Esquece a Previdência”, diz.

Para Perfeito, a crise no Planalto deve levar o mercado a rever as projeções para as principais variáveis macroeconômicas. “Já esperávamos taxa de câmbio a R$ 3,60 no fim do ano. Possivelmente o que está com uma estimativa menor, tende a alterar. Mas revisamos a projeção para o corte da Selic este mês, de um ponto para queda de 0,75 ponto. Já é um corte significativo”, afirma. Atualmente a taxa de juros está em 11,25% ao ano.

Delação. Em delação premiada a procuradores da Lava Jato, Joesley diz ter gravado conversa com Temer na noite de 7 de março durante reunião de cerca de 40 minutos no Palácio do Jaburu. O executivo entregou também o senador Aécio Neves (PSDB-MG), presidente nacional do partido, com gravação em que o senador pede a quantia de R$ 2 milhões sob o argumento de que precisava de dinheiro para a defesa na Operação Lava Jato. Joesley quis saber quem pegaria as malas com dinheiro e a resposta de Aécio teria sido: “Tem que ser um que a gente mata ele antes de fazer delação”.

Nesta manhã o senador tucano é alvo nesta manhã de operação da Polícia Federal, que cumpre mandados nos imóveis de Aécio no Rio e Belo Horizonte e no gabinete Zezé Perrella no Senado. O Supremo Tribunal Federal (STF) autorizou  a prisão preventiva de Andrea Neves, irmã de Aécio, que teria pedido dinheiro em nome do irmão para Joesley Batista. Conforme apurou o Estado, Andrea não foi localizada.

A PF acionará a Interpol, pois tem a informação de que a irmã de Aécio estaria em Londres. O STF também determinou o afastamento do senador Aécio Neves (PSDB-MG) do mandato de senador e do deputado Rocha Loures (PMDB-PR) do mandato de deputado federal. A oposição no Senado se reuniu logo após a notícia do suposto áudio e montou um plano de ação que consiste em um pedido de impeachment, na pressão pela renúncia do presidente e pela paralisação da análise das reformas do governo no Congresso Nacional.

A oposição vai se mobilizar na manhã desta quinta-feira na Comissão de Constituição de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara para colocar em votação a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que permite as eleições diretas. O PSDB, partido mais fiel e aliado do governo Temer, já admite que a permanência do presidente fica “insustentável”. Interlocutores de integrantes da Corte Eleitoral ouvidos pelo Broadcast avaliam que as novas revelações podem complicar a situação de Temer no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

O Palácio do Planalto divulgou nota oficial ontem na qual Temer nega ter negociado o repasse de dinheiro para comprar o silêncio de Cunha. Reconhece o encontro com Joesley, mas diz que não houve, na conversa, “nada que comprometesse”. No exterior é também de aversão a risco mas por causa de outro presidente, Donald Trump, e a incerteza sobre se será capaz de cumprir suas promessas políticas de crescimento dos Estados Unidos, como redução de impostos e de gastos do governo.

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