Crise estimula a migração de investimento produtivo para aplicações financeiras

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A primeira metade do ciclo recessivo em que o Brasil mergulhou, a partir do segundo trimestre de 2014, reforçou a cautela no comportamento financeiro dos brasileiros. De 2013 para 2015, o total de rendimentos em aplicações financeiras, incluindo a caderneta de poupança e renda fixa, quase dobrou, de R$ 65,8 bilhões para R$ 111,2 bilhões. A variação real, descontada a inflação, é de 46%, segundo dados enviados à Receita Federal, com base na declaração de imposto de renda de quase 28 milhões de brasileiros. No mesmo período, o valor referente a lucros e dividendos ficou estagnado. “Esse movimento aponta que houve, depois da crise, uma migração do investimento produtivo rumo a aplicações financeiras”, explica o economista Sérgio Gobetti, do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), que compilou os números, atualizados pelo Fisco em maio.

As empresas pagam impostos sobre lucros, e, após tributados, são o valor é distribuído aos acionistas. Os sócios que recebem os chamados “dividendos” os declaram, mas não pagam impostos sobre esse tipo de rendimento. Os números evidenciam que, mesmo isentos de cobrança, o rendimento com lucros e dividendos não está voltando para as empresas, na forma de investimento produtivo – uma distorção, segundo o economista.

Mais conservadores, os brasileiros estão preferindo poupar a comprar novas ações, por exemplo. “A alta do rendimento em aplicações financeiras se deve menos aos juros maiores e mais ao aumento das aplicações na poupança”, acrescenta Gobetti. No caso da caderneta, tipo de aplicação mais tradicional entre os brasileiros, o rendimento passou de R$ 20,7 bilhões  em 2013 para R$ 41,6 bilhões em 2015, variação real de 73%

 

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Os números do levantamento mostram outro efeito perverso da crise: o congelamento do crescimento da renda per capita. Entre 2013 e 2015, a renda líquida dos brasileiros cresceu, em média, 16,5%. A alta equivale a um crescimento real de praticamente zero, já que a inflação média do período, calculada pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), foi de 15,9%. Gobetti pondera, no entanto, que o cálculo não é perfeito, já que a média esconde diferenças, se olhamos para as diferentes faixas de renda. Prova disso é de que o Produto Interno Bruto (PIB) per capita recuou no intervalo analisado. Para chegar à conclusão, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), usa uma base de dados mais ampla.

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