Cunha defendeu interesses de empresário na Caixa e na Agricultura, diz delação

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Em 1º de julho do ano passado, uma sexta-feira, a Polícia Federal bateu cedo à porta do corretor de valores Lúcio Bolonha Funaro, em São Paulo. Os agentes tinham em mãos um mandado de prisão expedido contra ele pelo ministro do STF Teori Zavascki. O motivo: Funaro era acusado de arrecadar propina junto a empresas em troca da liberação de recursos da Caixa e também era suspeito de ameaçar testemunhas que poderiam lhe delatar. Dez meses depois, na última quinta-feira (18), sua irmã Roberta Funaro teve o mesmo destino: presa por uma nova operação da PF sob suspeita de receber uma mesada do empresário Joesley Batista, da JBS, que era um dos principais parceiros criminosos do seu irmão. Assim, Funaro ficaria calado e não delataria o empresário. O que ele não esperava é que Joesley delataria antes e complicaria ainda mais sua situação na Justiça.

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Em sua delação, Joesley confirmou os pagamentos de propina a Funaro, que também tinham o ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) como destinatário. A parceria criminosa entre eles começou em 2011, com foco em liberações de recursos da Caixa Econômica Federal por meio de aliados de Cunha no banco, notadamente o ex-vice-presidente Fábio Cleto. Funaro oferecia influência para liberar os aportes da Caixa em troca de pagamentos de propina, que ocorriam tanto em espécie como por meio de contratos fictícios com suas empresas. No total, o dono da JBS contabilizou ter pago mais de R$ 80 milhões em propina em troca de financiamentos da Caixa e do fundo de investimentos do FGTS.

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Essa parceria se estendeu também por meio de atuação de Cunha e Funaro no Ministério da Agricultura em defesa dos interesses de Joesley. Em um desses casos, chegou a haver a transferência de um helicóptero do dono da JBS para a propriedade de Funaro, como forma de pagamento de propina. Cunha também, segundo o delator, cobrou um pagamento de R$ 20 milhões para incluir o setor de aves na desoneração da folha de pagamento e ainda pediu mais dinheiro para ajudar em sua campanha para a presidência da Câmara em 2015. A ajuda financeira continuou mesmo após a prisão deles, por meio do pagamento a intermediários para que permanecessem calados, segundo as investigações. A defesa de Cunha informou que ainda iria analisar os elementos de prova antes de comentar. O advogado de Funaro, Bruno Espiñeira, afirmou que os valores pagos pela JBS a seu cliente estavam relacionados a um contrato legalmente firmado.

O cardápio da delação ainda é vasto. Para Eunício Oliveira, a acusação é o pagamento de R$ 5 milhões em troca de alterações em Medida Provisória sobre créditos de PIS/Cofins. Há pagamentos de propina a dois ministros do governo Temer: Gilberto Kassab (PSD), com valores de ao menos R$ 5,5 milhões por conta do apoio à campanha de Dilma Rousseff, e Marcos Pereira (PRB), de R$ 6 milhões para a obtenção de um empréstimo da Caixa. O tucano José Serra recebeu R$ 20 milhões na campanha de 2010, por meio de doações oficiais e caixa dois, segundo Joesley. A delação da JBS mostra claramente o resultado da política petista de “criação de campeões nacionais”: tudo ocorria mediante espúrias relações entre o público e o privado, pagamentos vultosos de propina e liberações ainda mais vultosas de recursos públicos. Neste “campeonato”, os corruptos e corruptores acabaram vencedores. Entre os derrotados, somente a sociedade e o cidadão brasileiro.