Ele colocou uma cidade para correr

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Nem acredito! Tirei o projeto dos sonhos da gaveta. Realizei, com a ajuda de uma ótima equipe, e ainda conseguimos excelentes resultados. Estou falando do Projeto Vida de Saúde, feito durante o ano de 2016 na cidade de Jaguariúna, a 123 quilômetros de São Paulo. Uma intervenção inédita em todo o mundo, que se propôs a mudar hábitos de vida de uma população de 53 mil habitantes para tornar a cidade mais saudável, além de economicamente menos dispendiosa. Praticamente 40% da população apresentou mudança significativa dos hábitos de vida, resultando em melhores índices nas principais doenças e complicações na saúde, decorrentes do sedentarismo e de uma má alimentação.

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Iniciamos o projeto com uma caminhada de abertura, uma forma de nos apresentarmos e pedir licença para “invadir” a cidade e mudar o estilo de vida de seus moradores. Fomos muito bem recebidos. Nas semanas seguintes, fizemos ações educativas de capacitação dos profissionais da saúde, sobretudo os agentes de saúde e enfermeiros, que têm contato constante e direto com os moradores e que até mesmo visitam suas casas, para levar informação sobre dengue, chikungunya etc. Por que não levar até as casas das pessoas informações para melhorar a qualidade de vida, dicas simples e tirar dúvidas sobre alimentação, atividade física, sono e outras questões do dia a dia? Dentro das unidades de saúde, agentes, médicos e enfermeiros passaram a adotar mudanças. Visitamos escolas e empresas. Também promovemos uma competição saudável entre os servidores públicos, premiando as secretarias com melhores resultados.

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A comunicação por toda a cidade foi fundamental. Usamos outdoors. Adesivamos pontos de ônibus, restaurantes e padarias. Fizemos matérias para o jornal. Montamos um canal no YouTube com os vídeos de todas as intervenções feitas, além de mensagens de texto que todas as pessoas recebiam em seus telefones com dicas de bem-estar, sempre incentivando, informando, lembrando que pequenas mudanças no dia a dia fazem toda a diferença. Eventos como passeio ciclístico, caminhada, oficinas de nutrição, laboratório de atividade física, piquenique com bate-papo, manhãs esportivas fizeram parte de nossas ações e foram importantes para criar a atmosfera de mudança por toda parte.

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Os números finais são motivo de tanto orgulho e alegria para nossa equipe:

. Envolvimento com o projeto: 83% da população ouviu falar do projeto e 18,1% participaram. Vale ressaltar que muitas pessoas acreditam não ter participado porque não foram aos eventos populacionais, mas tiveram contato com agentes de saúde ou enfermeiros nos postos de saúde e, sem “saber”, foram atingidas pelo projeto.

. Mudança de vida: 39,4% da população da cidade mudou hábitos de vida devido ao projeto. Das pessoas que consideram ter participado do projeto, 74% tiveram mudanças.

. Quanto à alimentação, 12% da população aumentou o consumo de frutas, verduras e hortaliças e, dos que participaram, 25% apresentaram esse aumento. Houve queda de 27% no hábito de substituir as principais refeições por lanches. Houve também redução de 6% no consumo de gordura em excesso, 27% no consumo de refrigerantes e 10% no consumo de doces.

. Com relação à atividade física, houve aumento de 35% no movimento em momentos de lazer entre os participantes e queda de 37% na inatividade física entre as pessoas que conheciam o projeto. Houve redução significativa de peso (e IMC) para grupo de obesos (1,5 quilo, em média) e sobrepeso (0,5 quilo, em média).

. Entre os idosos, houve aumento de 34% no movimento físico durante o lazer e redução de 21% no hábito de assistir à TV por mais de três horas ao dia.

. Entre as crianças, houve aumento na atividade física dos que apresentam sobrepeso de 14% e 6% para crianças já obesas. Em média, estima-se um aumento de aproximadamente 2 quilos no peso das crianças após a intervenção. Levando em conta que as crianças crescem e ganham peso nessa época da vida, o resultado é excelente. Pode-se concluir que ocorreu redução no tempo de tela, tempo despendido em frente a computadores, videogames, smartphones etc.

Não estamos falando apenas de educação e saúde. Estamos falando de economia de milhões de reais, que são gastos em hospitais e procedimentos complexos e custosos, enquanto muito menos dinheiro poderia ser investido em prevenção, em qualidade de vida, reduzindo drasticamente essa conta, que já está comprometida, e que num futuro nada distante estará em total déficit. Tenho orgulho em dividir essa história de sucesso, que pretendo seja apenas a primeira, e que, mesmo na condição de pioneira, alcançou resultados sete vezes maiores que a média atingida em intervenções populacionais, de cerca de 6%.

Se ainda tenho algum sonho? Alguma ambição? Claro. Poder levar esse projeto para o Brasil, de ponta a ponta, e sermos a primeira nação a sair do (quase inevitável) caminho do colapso da saúde, do sedentarismo massificado, das doenças decorrentes do estilo de vida moderno, da redução da longevidade. Aí, eu posso considerar que cumpri minha missão.