“Existe uma crise de liderança entre os palestinos”

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O historiador palestino Nur Masalha dedicou boa parte de sua vida a estudar a história palestina e os eventos que levaram à guerra Árabe-Israelense de 1948. Parte do grupo dos chamados “novos historiadores” – que a partir da pesquisa documental passaram a desafiar a história oficial dos eventos de então –, Masalha tem como enfoque a narrativa, a memória e a história oral dos palestinos. Nascido na Galileia, Masalha vive na Inglaterra, onde é editor do periódico acadêmico Journal of Holy Land and Palestine Studies (Jornal da Terra Santa e de Estudos Palestinos) e pesquisador da Escola de Estudos Orientais e Africanos da Universidade de Londres (SOAS, em sua sigla em inglês). Em entrevista a ÉPOCA, Masalha falou sobre a disputa de narrativas históricas que permeia o conflito entre israelenses e palestinos e as perspectivas para uma solução.

ÉPOCA – Seu trabalho é focado na narrativa histórica palestina e a sua preservação. O senhor diz que existe um esforço deliberado pelas autoridades israelenses de apagamento da narrativa palestina sobre os eventos relacionados à fundação de Israel e o conflito na região. O que seria esse esforço e por que ele aconteceria?
Nur Masalha –
Em 1970, a então primeira-ministra de Israel, Golda Meir, disse que palestinos não existiam. Basicamente, ela não queria que nós existíssemos, ela nos tornou invisíveis. Se você expulsa as pessoas, diz que elas não têm história e não existem, talvez você possa se livrar delas completamente. Essa foi uma das estratégias antes de 1948.  Em 1948, tentaram expulsar todas as pessoas, dissolver nossa cultura, a memória, os nomes e a história do lugar. Uma das estratégias foi tentar destruir a memória da região, desenraizar essa memória. Escrevi sobre táticas e estratégias (dos israelenses), mas também escrevi sobre vozes nativas, como os palestinos responderam a isso, mantendo sua memória, mantendo os nomes. Temos refugiados palestinos no Líbano que ainda estão usando o nome do vilarejo de onde eles foram expulsos. Escrevi sobre as duas narrativas. A narrativa colonial é: "eles não existem, eles não têm voz, eles não têm livros". E a narrativa palestina é: “nós temos história, cultura, arquitetura, nós construímos civilizações aqui, nós estamos aqui”. A memória é uma parte importante da identidade de uma pessoa. Escrevi muito sobre a história oral da Palestina, feita a partir das vozes da Palestina, porque não permitem que os palestinos falem por si mesmos, eles queriam nos explicar para nós. Para falar por nós mesmos, escrever livros, esse tipo de autodefinição foi algo importante. Historiadores produzem conhecimento e conhecimento é poder. Não é apenas para bibliotecas, é para as pessoas. Não é uma história para as elites acadêmicas que discutem este ou aquele evento. História também é parte do presente, porque a história do passado continua no presente. Todos nós viemos de algum lugar. Sua história é a razão de você existir. História é o que fez você ser o que é. E para nós, a história é o presente, porque nós continuamos a enfrentar limpeza étnica, expulsão. Ainda não temos segurança, ainda vivemos sob ocupação. A história é uma forma de explicar o agora.

ÉPOCA – Alguns acadêmicos hoje dizem que o próprio conflito entre israelenses e palestinos é uma disputa de narrativas históricas - a sionista e a palestina. O senhor concorda com essa visão?
Masalha –
Narrativas são basicamente as histórias que os povos contam. Mas o conflito, antes de ser uma questão de narrativa, é um questão de realidade. Existe uma realidade colocada. Quem controla as coisas? Não é apenas uma questão de narrativa, mas de fatos. Quais são os fatos? Israel está ocupando e colonizando, palestinos são colonizados. Então, não podemos pensar apenas em narrativas, porque a narrativa histórica tem que estar baseada em fatos. Se você pensa que se trata de uma disputa de narrativas, como você pode distinguir propaganda de realidade? Quem está colonizando? Quem está tomando terras? Quem tem colonos? Quem está usando a maior parte da água? Sem fatos, não há verdade. A narrativa do colonizador não é a mesma coisa que a narrativa da vítima. A verdade tem a ver com realidades. Não apenas narrativa. Se você disser que as mulheres e os homens têm os mesmos direitos, isso não é verdade porque homens ainda ganham mais que mulheres. Se você não checar os fatos e focar apenas na narrativa, você não vê tudo. A verdade é também uma questão ética. A narrativa quando se está no poder não é a mesma quando você é um refugiado ou uma vítima. Nem todas as narrativas são equivalentes. E há que se estudar o que há sob a narrativa: existe verdade nesta narrativa? Ou é apenas propaganda por um lobista? Eu sou um historiador, tenho que provar o que falo. Não posso apenas aparecer na TV como um lobista e dizer minha história, tenho que produzir evidências. Tenho que mostrar os documentos. Para mim, como historiador, fatos, evidências, referências são a coisa mais importante. Precisamos ter evidências.

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ÉPOCA – Críticos do seu trabalho atribuem à invasão dos países árabes o início da guerra de 1948 e argumentam que a realidade é mais complexa.
Masalha –
Eles expulsaram ou não os palestinos? Existem montanhas de documentos israelenses que mostram isso. Temos ordens, assinaturas, documentos, sabemos quem fez o quê, em que vilarejo, em que cidade. Temos documentos israelenses e historiadores israelenses escrevendo sobre isso. Você não precisa levar em conta o que eu falo, pode ler o que um dos historiadores israelenses escreveu. A complexidade é importante, mas então é preciso olhar para diferentes fontes. A complexidade significa que não olhamos apenas para uma fonte, mas para múltiplas. Você olha para o que os refugiados palestinos falam, para o que os documentos oficiais dizem. A complexidade é importante, mas, em última instância, é preciso tomar uma decisão: isso realmente aconteceu ou são apenas alegações? Eu usei múltiplas fontes, trabalhei com fontes em hebraico e em outras línguas. Se você conseguir uma única fonte, não é o suficiente. Nós estamos aqui para ser críticos. É aqui que ficção e realidade são separadas. E é por isso que a verdade de fato pode ser complicada e complexa, mas existe uma verdade e devemos buscá-la.

ÉPOCA – Com a instabilidade no Oriente Médio, entre Síria, Iraque, o Estado Islâmico, a guerra no Iêmen, a questão palestina acabou relegada a um espaço secundário para a comunidade internacional. Qual o efeito disso para o tema?
Masalha –
O sectarismo no Oriente Médio é uma má notícia para a região. Xiitas, sunitas, Arábia Saudita tentando lutar contra o Irã, vemos isso no Iêmen também, isso é uma má notícia para a região de maneira geral. E todos nós queremos ver um Oriente Médio diferente. Quando vemos esses problemas e comparamos ao que pensávamos no começo da Primavera Árabe, o horizonte ficou muito cinzento. Acho que, a longo prazo, a questão da Síria poderá ser resolvida e os refugiados sírios vão conseguir voltar, diferentemente dos refugiados palestinos que foram forçados a fugir e não permitiram que voltassem. A vasta maioria dos refugiados sírios ainda está no Oriente Médio e essas pessoas conseguirão voltar. Ao mesmo tempo concordo que a situação internacional é muito ruim, com Donald Trump nos Estados Unidos, com o Brexit. Mas um historiador como eu olha para períodos mais longos. Em cinco anos, podemos ter uma mudança. Não podemos nos desesperar.

ÉPOCA – Como o senhor vê a relação de Donald Trump e Benjamin Netanyahu se desenvolvendo daqui para frente?
Masalha –
A questão é se Trump será ainda mais extremista que George W. Bush. Porque Bush era neoconservador e muito próximo de Netanyahu. Trump é uma grande incógnita para mim, porque ainda não consigo ler se Trump é um pragmático ou se é ideológico. Netanyahu é ideológico. Trump é um oportunista. Mas se ele fizer algo estúpido, como mudar a embaixada para Jerusalém, a cidade pode explodir. É tão sensível que pode explodir. Jerusalém não é só uma questão palestina. Há toda a questão islâmica. Qualquer mudança na situação de Jerusalém pode desencadear respostas de estados islâmicos poderosos. Ele quer lutar contra um bilhão de muçulmanos? Jerusalém é um desses temas que não é palestino ou israelense, mas é uma coisa grande para o mundo, é um tema sensível. Os israelenses também querem administrar o conflito com os palestinos, não querem ter um levante em Jerusalém. Querem manter as coisas sob controle, manter a ocupação e administrar a ocupação. Não querem destruir santuários ou qualquer coisa parecida. Israel quer continuar a fazer o que está fazendo, quer colonizar, quer aumentar o número de assentamentos, mas não quer que a situação colapse. Os israelenses ainda querem conversar com Mahmoud Abbas (presidente da Autoridade Palestina). Eu acho que a agenda doméstica de Trump é muito mais urgente para ele. A Palestina não piorará necessariamente com ele na presidência americana, mas Israel continuará a pressionar Trump para se expandir. Então, a situação em campo não é estável. E a Autoridade Palestina é muito fraca.

ÉPOCA – Como o senhor vê essa situação da liderança palestina, entre Fatah e Hamas?
Masalha
– Abbas tem 80 anos, não é possível que viva mais que todos nós. Pode haver uma nova geração que entre em cena dentro do Fatah e a questão é se essa nova geração formada dentro do Fatah estaria disposta a jogar o mesmo jogo de policiamento dos territórios para os israelenses. Existe uma crise de liderança entre os palestinos e muitos de nós acreditam que não há uma liderança de fato eficaz, apropriada. Não há a liderança que nós merecemos. Não temos o tipo de liderança corajosa, consistente, limpa e não corrupta que está preparada para se sacrificar, não temos esse tipo de liderança. Que pensa estrategicamente, que pensa no que vai acontecer em dez anos. É uma liderança restrita a responder aos eventos, liderança de pensamento estreito, que não se une, que compete entre si. A Autoridade Palestina compete com o Hamas por migalhas, pelo apoio externo, não pensa no povo palestino, pensa em si. Se você quer liderar os palestinos, precisa pensar nos palestinos, como um povo. Esse tipo de liderança que é autocentrada, que pensa em seus privilégios, que pensa no seu cargo, em ser presidente, esse tipo de liderança é para si mesma apenas. Não é uma liderança ética, com alguma visão, que fala com os israelenses decentes, e exclui os racistas e autoritários. Gostaria de estabelecer um diálogo com israelenses decentes. Nós não precisamos de autonomia sob soberania israelense, nós precisamos ser um povo livre, vivendo em parte do nosso país. A Cisjordânia é só 20% da Palestina histórica, não é um absurdo que se pede. E até o Partido Trabalhista de Israel hoje fala em anexar partes da Cisjordânia. Não há visão vindo daquela direção. Existem israelenses decentes e nós precisamos falar com eles, mesmo que discordemos deles. Precisamos de pontes nessa direção, com um diálogo apropriado, de longo prazo, que possa produzir algo. Mas também precisamos do BDS (movimento pelo boicote, desinvestimento e sanções) contra as instituições que nos colonizam.

ÉPOCA – O senhor é um defensor do movimento pelo boicote, desinvestimento e sanções de Israel como forma de pressão pelo fim da ocupação. O governo de Israel argumenta que está sendo tratado de maneira injusta e que se trata de uma estratégia violenta. O campo pró-paz e contra o BDS argumenta que a solução para o conflito é construir pontes de diálogo e o boicote é um obstáculo para isso. Por que a estratégia do BDS é válida na sua opinião?
Masalha –
Porque é pacífica. Não é violenta. Não baleou ninguém. Funcionou na África do Sul, foi pacífico, foi sem armas, foi o oposto do que o Congresso Nacional Africano (ANC em sua sigla em inglês, partido político com um braço militante armado do qual Nelson Mandela fez parte) fazia quando colocava bombas na África do Sul. A estratégia anterior da Organização pela Libertação da Palestina era essa. Acredito que Israel prefere a reação militar, porque é a área na qual são fortes. Eles não gostam do BDS porque é pacífico. Você boicota as instituições racistas que colonizam os palestinos, mas ainda fala com israelenses decentes. A campanha palestina pelo boicote, que é organizada a partir da Palestina, não é o boicote de indivíduos israelenses. Nós ainda queremos falar com eles. Nós queremos conversar, construir pontes com eles. O que nós estamos fazendo é boicotar instituições que estão financiando a ocupação e essa é uma questão importante. Você boicota o racismo, que precisa ser boicotado. Não estamos boicotando os israelenses individualmente, como pessoas. Estamos boicotando um governo que está atirando em palestinos. Nós estamos boicotando instituições, pessoas que estão sustentando e apoiando a colonização. E essa é a coisa mais legítima a se fazer. Por isso está funcionando. E por isso Netanyahu não gosta. Como você pode dizer que um homem como Stephen Hawking (o físico britânico recusou um convite para uma conferência em Jerusalém como endosso ao movimento), que é um homem que apoia o conhecimento, a troca, decência, é uma figura inimputável, é violento? É fácil chamar as pessoas de antissemitas e violentas, você não consegue vencer esse argumento. Netanyahu está combatendo não só palestinos, mas judeus que veem as coisas de maneira diferente. Eles combatem o que chamam de "inimigos internos". Está combatendo acadêmicos israelenses como Illan Pape, que teve que deixar o país. Você vê que estão nervosos, porque não conseguem lidar com isso. Sabem lidar com a violência, com o Hamas jogando mísseis, mas não sabem lidar com a estratégia não-violenta. Porque sua própria estratégia tem a ver com medo, com poder, com o uso do Exército. Os palestinos estão precisamente usando a estratégia correta. Não é um ataque a civis, não tem alvos randômicos, não é terrorismo, coisa que não apoio. É uma tática não-violenta, com o objetivo de acabar a ocupação e trazer algum tipo de normalidade e racionalismo à situação.

ÉPOCA – Com o surgimento do BDS e a ascensão da Lista Árabe no parlamento israelense, por exemplo, existe uma discussão sobre os se os palestinos devem progressivamente abandonar a reivindicação de um Estado-Nação e se deslocar para uma luta por direitos civis. O senhor concorda? Um Estado palestino ainda é viável?
Masalha –
O debate não está se movendo em termos de direitos civis como ocorreu nos Estados Unidos, com Martin Luther King, mas está se movendo da solução de Dois Estados para a solução de Um Estado. O problema é que é algo muito difícil de executar. No momento, já vivemos a solução de Um Estado. O que os palestinos estão dizendo: se já é uma solução de Um Estado, com vocês controlando todo o território e a demografia é mais ou menos a mesma, por que não um único Estado conjunto binacional? Não é uma demanda para os palestinos serem cidadãos do Estado israelense, mas um novo Estado, que seja para os dois lados. Um Estado para os dois povos, que trate os dois povos igualmente, que tenha duas línguas, dois universos culturais. A solução de Dois Estados é sistematicamente sabotada por Netanyahu, porque se você toma terras, não há terra para o Estado palestino. A Autoridade Palestina está encolhendo e está se tornando uma municipalidade local. A prefeitura de São Paulo talvez tenha mais poder que a Autoridade em Ramallah. Ninguém a leva a sério como estrutura soberana. Apesar do mantra e dos ritos, a realidade é que a solução de Dois Estados tem sistematicamente sido destruída por meio da anexação. Os israelenses podem, sem querer, estar pavimentando a estrada para uma solução de longo prazo, baseada na ideia de Um Estado para os dois povos. Ainda não há apoio internacional para isso, ainda há um discurso internacional e da ONU sobre a solução de Dois Estados, mas isso é uma história de 20, 30 anos atrás. Do lado palestino, a Autoridade Palestina e o Hamas ainda falam nesses termos. Mas existem palestinos que falam sobre a realidade atual, que de alguma maneira já é o futuro. A questão é que Israel continuará lutando por um Estado judeu. Se você continuar lutando por um Estado exclusivamente judeu e se a realidade é de dois povos em um Estado, então você termina com um apartheid oficial. É quase uma impossibilidade manter o Estado judeu só judeu se você tem metade dele feito por palestinos. No longo prazo isso não é viável e não pode sobreviver. Na prática (com a anexação da Cisjordânia) estão prejudicando a própria concepção de Estado judeu e sua viabilidade, e alguns deles reconhecem isso.

>> Acervo - Por que Israel provocou revolta ao anexar mais terras na Cisjordânia?

ÉPOCA – Tendo então essa perspectiva, que futuro você vê para os palestinos e israelenses nos próximos 50 anos?
Masalha –
O conflito segue difícil de resolver, ainda vai levar um longo tempo, o que significa dificuldades. Vai ser doloroso  conseguir resolução e reconciliação. Então, se partirmos do pressuposto que abandonamos a solução de Dois Estados, que se tornou uma não-solução e se tornou uma desculpa para o apartheid, apoiar a solução de Um Estado não significa que ela acontecerá do dia para a noite. Eu aviso aos palestinos que defendem a solução de Um Estado que isso não acontecerá amanhã. Que significará na verdade mais dor, mais luta, mais tentativa de persuasão dos israelenses para que sejam racionais, significa mais apoio internacional e significa uma luta mais longa. Nós tivemos 100 anos de luta na Palestina. Pode levar uma geração ou mais para chegarmos até esse ponto. Mas soa como a posição mais racional. Queremos reconhecer os dois povos que vivem ali. Mas os colonizadores vão abrir mão de seus privilégios do dia para noite e ficar em pé de igualdade com os colonizados? Israelenses não vão querer abrir mão de seus privilégios. Os negros levaram séculos nos Estados Unidos e ainda não chegaram lá. Movimentos como Black Lives Matter mostram isso. Os Estados Unidos eram uma sociedade colonial que se tornou mais democrática. Mas Israel não parece ir nessa direção. Vai na direção de mais restrições e discriminação, do banimento do acesso palestino à terra até proibição da celebração da Nakba (catástrofe, em árabe, como palestinos chamam os eventos de 1948). Israel não mostra sinais positivos de democratização, está se movendo na direção oposta.

>> Acervo - Os órfãos que renovam a guerra