La Sarthe, 1976: quando dois carros da Nascar correram nas 24 Horas de Le Mans

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La Sarthe, 1976: quando dois carros da Nascar correram nas 24 Horas de Le Mans

Normalmente, quando relembramos corridas das antigas, tendemos a lembrar dos vencedores. Nas 24 Horas de Le Mans de 1976, por exemplo, 41 anos atrás, o vencedor foi o protótipo 936 Turbo da Porsche, e contamos sua história aqui. Mas sabe o que mais aconteceu em Le Mans naquele 1976? Dois carros da Nascar disputaram a prova. Sim, dois muscle cars americanos saíram dos ovais para correr em um dos circuitos mistos mais desafiadores que existem!

Mas o que eles estavam fazendo lá? É o que vamos descobrir agora.

Tudo começou em 1975, quando o mundo do automobilismo ainda estava sofrendo com a crise do petróleo de 1973 – a mesma que quase matou os muscle cars nos Estados Unidos na década de 70 e trouxe motores V8 extremamente capados para este mundo. Naquele ano (1975, não 1973, caso não tenha ficado claro), o Automobile Club de l’Ouest, o ACO, decidiu modificar o regulamento das provas de longa duração a fim de estabelecer um limite de consumo de combustível.

Na verdade era um esforço duplo: ao exigir que os carros fossem capazes de dar ao menos 20 voltas em La Sarthe antes de abastecer, a organização das 24 Horas de Le Mans reduziria o consumo de combustível e acabaria obrigando as equipes a utilizar motores menos potentes e beberrões. Com isto, esperava-se que a diferença de velocidade entre os carros mais rápidos e os mais lentos fosse um pouco menor, o que em tese ajudaria a tornar as corridas mais seguras. Ou melhor, menos perigosas.

Acontece que quem não gostou muito disto foram as companhias que mantinham equipes de fábrica no WSC. Alfa Romeo, Matra, Ferrari e Alpine simplesmente abandonaram a competição, o que tornou as coisas bem tranquilas para a Gulf, que venceu as 24 Horas de Le Mans daquele ano sem muito esforço. Só havia um detalhe: a edição de 1975 não fazia parte do campeonato e pouquíssimas pessoas se deram ao trabalho de sair de casa para assitir ao vivo.

Com pouco público e poucos carros, os organizadores entraram em pânico: havia o risco de a edição de 1976 ser um fracasso ainda maior.

Para que isto não acontecesse, o ACO teve uma ideia: levar algo novo para a pista e assim, garantir um grid cheio e diversificado. Foi por isto que eles entraram em contato com “Big” Bill France, o fundador da Nascar, para um pequeno “intercâmbio”: uma categoria nas 24 Horas de Le Mans feita especialmente para carros americanos. E foi assim que nasceu a categoria Grand International, que fez sua estreia nas 24 Horas de Le Mans do ano seguinte.

Junho de 1976. Entre os protótipos da Porsche, como o 936 e o 908; alguns exemplares do BMW 3.0 CSL e até mesmo um Lancia Stratos, dois estranhos no ninho: um Ford Torino 1975, comandado pelo piloto independente Junie Donlavey e pelos colegas Richard Brooks e Dick Hutcherson; e um Dodge Charger 1972 da dupla formada por Herschel e Doug McGriff, pai e filho. Todas as despesas de transporte, hospedagem e logística das duas equipes foram pagas pela Nascar e pelo Automobile Club de l’Ouest.

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O Dodge Charger e o Ford Torino saindo de seus containers

As duas equipes foram escolhidas pessoalmente por Big Bill. Seus carros eram o que havia de melhor nos ovais da Nascar – o Torino era movido por um V8 Boss 429 com cárter seco e mais de 600 cv, enquanto o Charger era movido por um V8 Hemi 426 também com cerca de 600 cv.

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Dois cupês enormes, com motores de mais de sete litros, no meio dos esportivos leves e dos protótipos europeus – é óbvio que a estratégia de chamar a atenção deu certo: o público ficou enlouquecido com os muscle cars e, segundo relados da época, seguia as equipes e seus membros por todos os cantos. A imprensa francesa apelidou o Charger e o Torino de Les Deux Monstres, ou “Os Dois Monstros” em tradução literal. Mas não era tirando um sarrinho e nem nada disso – era mais ou menos como o Faustão quando chama seus convidados de “monstros sagrados”, saca?

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Mas não era só isto: Big Bill acreditava que seus muscle cars tinham boas chances de se sair bem nas 24 Horas de Le Mans. Ele não chamou Donlavey por acaso, por exemplo: um de seus pilotos, Hutcherson, esteve ao volante do Ford GT40 que venceu as 24 Horas de Le Mans de 1966, dez anos antes, e foi convencido a interromper sua aposentadoria para correr na França.

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A corrida foi vencida por Jacky Ickx ao volante do Porsche 936, como já dissemos ali no começo. Os muscle cars, apesar de seu excelente desempenho bruto, simplesmente não haviam sido feitos para correr por 24 horas em um circuito de rua na Europa e, por isto, não aguentaram muito tempo.

O Dodge Charger teve problemas com a diferença entre os combustíveis europeu e americano. O motor sofreu com pré-detonação dentro dos cilindros e, com isto, um dos pistões do Hemi abriu o bico depois de duas voltas, logo após o carro passar dos 340 km/h na reta Hunaudières (aka Mulsanne). Ele haviam largado na 47ª posição, classificados com 4:29,7.

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O Ford Torino também passou por maus bocados. Não por causa do motor, mas sim pelo câmbio manual de quatro marchas, que não aguentou realizar mais de 20 trocas por volta e também disse “chega” com 11 horas de prova.

O fracasso na corrida levou o acordo entre a Nascar e o ACO ser revogado para o ano seguinte. Contudo, tanto o o Dodge Charger quanto o Torino seguem em atividade até hoje, participando de eventos de clássicos e aproveitando sua fama.

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