O PSDB longe do pulsar das ruas

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Sempre tive a curiosidade de saber de onde veio a marca de “partido em cima do muro” que o PSDB carrega. Alguns dizem que tudo remonta às vacilações do partido no impeachment de Collor. Outros que remonta à própria criação do partido, nem muito “à direita” nem muito “à esquerda”. Gosto de pensar que vem da personalidade de Fernando Henrique, nosso político mais ao estilo Albert Camus. Ele que um dia prometeu aderir a um partido apenas se encontrasse algum feito de gente que “não tem a certeza de que possui a verdade”.

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Por estes dias o PSDB anda em uma nova encruzilhada: abandonar ou não a pinguela de Michel Temer. A decisão fácil, por óbvio, seria abandonar o barco. Seguir o “pulsar das ruas”, como dizia seu slogan original. O partido tem dois candidatos à Presidência, o governo está na lona e o ruído das redes sociais é insuportável. Mas o partido resolveu fazer o difícil, por estranho que pareça. Ao menos por enquanto.

A decisão do PSDB causou furor país afora, mas seu gesto acabou lançando uma questão interessante nestes tempos nervosos: um partido político, afinal de contas, deve ou não ter alguma espinha dorsal? Deve ou não se mostrar capaz, vez por outra, de andar na contramão do “pulsar das ruas”? Vamos lá: não é isso precisamente que significa apoiar a reforma da Previdência? Pesquisas mostram que sete entre cada dez brasileiros são contra a reforma, e o PSDB está lá, na contramão. Que bom, penso eu. Liderança política é isso, não? Alguém deseja viver em uma democracia cuja liderança política anda como biruta de aeroporto, seguindo o alarido das redes sociais?

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De minha parte, não tenho a menor ideia se foi ou não uma boa decisão permanecer no governo Temer. Interessa-me o problema conceitual em jogo. De um lado, a posição do jurista Miguel Reale Jr., para quem o PSDB compromete seu passado de virtudes ao participar de um governo “denunciado por condutas nada republicanas”. Do outro lado, o deputado Marcus Pestana, que lembra que o presidente Temer não foi sequer indiciado, que é preciso provar acusações, dar chance à defesa etc. Essas “obviedades esquecidas em tempos de cólera”.

Há quem diga que o PSDB só não sai do governo porque precisa do apoio do PMDB para salvar o mandato de Aécio Neves. Sendo isso verdade, é um partido que não vale nada. Não o sendo, o PSDB se afirma, mais uma vez, para a irritação geral da nação, como o mais weberiano dos partidos brasileiros. O mais atento ao que recomenda uma “ética da responsabilidade”. Ética que presta atenção às circunstâncias da política e às consequências do ato político. Daí a preocupação com temas como a governabilidade do país e o sucesso das reformas no Congresso.

O tempo se encarregará de produzir uma resposta. Fernando Henrique já flerta com a ideia de antecipar as eleições e é provável que o PSDB abandone o governo logo adiante. Mas não deixa de surpreender positivamente esse seu pequeno gesto de prudência. De agir com um pingo de moderação numa época em que todos nos tornamos culpados até que se prove o contrário.

O PSDB longe do pulsar das ruas