Quando uma perua Fiat derrubou o presidente do Brasil

0
85
Quando uma perua Fiat derrubou o presidente do Brasil

Em 1989 o Brasil elegia um presidente pela primeira vez em três décadas. O escolhido era Fernando Affonso Collor de Mello, um carioca de Alagoas que prometeu acabar com a velha política brasileira, acabando com as regalias de servidores públicos com supersalários, caçando corruptos, vestindo os descamisados e calçando os pés descalços.

Collor também prometeu expandir a economia brasileira, abrir nosso mercado para as importações e reduzir a interferência do Estado na economia, iniciando um plano de privatizações. Era um personagem perfeito para o espírito da época, que acabara de presenciar a ruína da União Soviética e dos ideais socialistas.

Sua imagem jovem e atlética também colaborou com essa ideia de renovação. Eleito aos 40 anos, Collor foi o presidente mais jovem da história do Brasil, e fazia questão de ser filmado e fotografado praticando exercícios físicos e artes marciais, voando de carona em caças da FAB, pilotando lanchas, jet skis ou ainda a única Ferrari F40 da América Latina na época.

Quando uma perua Fiat derrubou o presidente do Brasil

Além disso, o presidente dispensou a mudança para o Palácio da Alvorada, preferindo viver em sua própria mansão em Brasília, a Casa da Dinda, e também era visto com alguma frequência dirigindo seus carros, dispensando seu motorista particular. O Chevrolet Diplomata oficial da presidência também foi dispensado por Collor, que chamou os carros brasileiros de “carroças” e preferiu adotar um Mercedes-Benz Classe S, um Lincoln Town Car e um Alfa Romeo 164 para uso presidencial.

 

Logo ao chegar ao poder, contudo, Collor mostrou que por baixo da embalagem moderna havia um produto igual a todos os demais. Já nos primeiros três meses de mandato, o jovem presidente se viu envolvido em suspeitas de corrupção que culminaram com seu impeachment.

As denúncias de corrupção envolviam Paulo César “PC” Farias, tesoureiro da campanha presidencial de Collor e um dos braços-direitos do presidente durante sua gestão. As denúncias se referiam a um grande esquema de tráfico de influência que acabou conhecido como Esquema PC Farias. Não havia nenhuma novidade no sistema: com trânsito livre entre o empresariado e acesso aos bastidores do poder, PC Farias cobrava propinas de empresas para favorecer nomeações de cargos e decisões governamentais favoráveis aos empresários corruptores.

O dinheiro das propinas era depositado em contas de empresas-fantasma, controladas por testas-de-ferro de PC Farias em todo o Brasil e até no exterior.

As suspeitas deste esquema começaram ainda em 1990, quando o presidente da Petrobras renunciou após sofrer pressão de PC Farias para financiar um empréstimo de US$ 40 milhões à Vasp. Mesmo com a proposta rejeitada pelo conselho da Petrobras, PC Farias continuou a pressionar o empréstimo, o que culminou na renúncia do presidente da estatal.

Quando uma perua Fiat derrubou o presidente do Brasil

A acusação mais grave, contudo, veio em 1992: o próprio irmão do presidente Collor, Pedro Collor, disse à revista Veja que PC Farias era um testa-de-ferro do presidente e que influenciava fortemente as decisões do governo. Pedro deu detalhes à revista, chegando a afirmar que o jornal “Tribuna de Alagoas”, que PC Farias planejava lançar em Maceió era, na verdade, propriedade de Fernando Collor, e que um apartamento que PC Farias havia comprado em Paris também pertencia ao presidente.

Com as declarações o Congresso iniciou em maio de 1992 uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar a responsabilidade do presidente em relação aos fatos revelados por seu irmão Pedro. Durante a CPI, o motorista da secretária de Collor, Eriberto França, revelou que uma das empresas de PC Farias era responsável pelo pagamento das despesas regulares da Casa da Dinda e até mesmo pelo “abastecimento” da conta corrente da primeira-dama, Rosane Collor, o que reforçou as acusações de Pedro Collor.

O presidente negou as acusações, chegando a dizer que não tinha nenhum tipo de vínculo com PC Farias, mas naquele mesmo mês o ex-tesoureiro foi chamado para depor na CPI e apontou que depósitos de suas empresas foram feitos na conta da secretária particular do presidente. Até aí não havia nenhuma comprovação do envolvimento direto de Collor com o Esquema PC Farias.

A evidência que ligou o presidente ao esquema foi descoberta por Jorge Bastos Moreno, jornalista do jornal O Globo: ele conseguiu a cópia de um dos cheques usados para comprar o carro particular da primeira-dama Rosane Collor, uma perua Fiat Elba Weekend prata, ano 1991. O carro havia sido comprado pelo motorista Eriberto França com cheques que estavam em nome de um correntista fantasma de PC Farias.

Quando uma perua Fiat derrubou o presidente do Brasil

Foto: Gustavo Miranda/O Globo

Ironicamente, o presidente que gostava de adrenalina, andava de jet ski, pilotava Ferraris e dirigia seus carros acabou vinculado ao esquema de corrupção e derrubado do poder por um carro. Pior: o carro não era um modelo de luxo ou um superesportivo, mas uma das “carroças” brasileiras às quais ele se referiu ao reabrir as importações.

Quando uma perua Fiat derrubou o presidente do Brasil

Com a evidência do envolvimento do presidente Collor no esquema PC Farias, foi aberto o processo de impeachment que resultou em sua renúncia em 29 de dezembro de 1992, horas antes de ser impedido de prosseguir no cargo pelo Congresso Nacional.

Quando uma perua Fiat derrubou o presidente do Brasil

Com o afastamento de Collor seu vice-presidente, Itamar Franco, assumiu o cargo, e seu governo também acabou marcado pelo envolvimento com um carro, mas desta vez tudo aconteceu dentro da lei: ao criar uma série de incentivos para os chamados carros populares, Itamar abriu uma brecha que favorecia a volta da produção do Fusca — e é por isso que os Fuscas produzidos entre 1993 e 1995 são popularmente conhecidos como “Itamar”. Mas isso você já sabia.

Quando uma perua Fiat derrubou o presidente do Brasil

Foto: Correio Braziliense

Quanto à Elba de Collor, ela ainda existe: em 2005 o jornal Correio Braziliense descobriu que o carro estava abandonado, porém ainda registrado em nome de Fernando Affonso Collor de Mello.

The post Quando uma perua Fiat derrubou o presidente do Brasil appeared first on FlatOut!.