Rainha Camilla? Os súditos, e outros, podem ir se acostumando

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“Eu contratei um pessoal para te matar. Olhe pela janela. Eles estão no jardim. Dá para ver?”

Será que Diana algum dia realmente disse isso para Camilla, a amante que a substituiria na cama, e na coroa, do príncipe Charles?

Camilla faz hoje 70 anos, uma data cercada de notícias simpáticas a ela, nada surpreendentemente plantadas pela assessoria de Charles.

Além dos comentários favoráveis, também foi lançada uma biografia, escrita pela jornalista e autora Penny Junor, na qual Camilla é praticamente colocada como uma heroína que enfrentou com estoicismo o ódio da opinião pública, inconformada com a traição à princesa rejeitada.

 

É desse livro, onde Camilla, sabiamente, nunca aparece como fonte, que consta a ameaça de morte, impossível de ser comprovada. feita por Diana por telefone.

O problema do livro, e da vida das personagens envolvidas, é justamente o maniqueísmo: para exaltar Camilla, Diana tem que ser espezinhada – e vice-versa.

O aniversário de Camilla antecede em pouco mais de um mês os vinte anos da morte de Diana, com uma artéria cardíaca fatalmente rompida no acidente em que paparazzi seguiam a Mercedes já muito rodada guiada por um motorista bêbado a serviço de seu namorado, Dodi Fayed.

A data, evidentemente, vai rememorar o arquétipo imbatível da história da princesa linda e infeliz, perseguida pela amante bruxa que roubou seu marido.

JOGO PERIGOSO

A vida é muito mais complicada do que os arquétipos, embora a importância destes não possa ser subestimada – a sobrevivência das monarquias deve muito a eles.

Diana realmente era insegura, carente, ciumenta. Tinha ataques de fúria e sofria de bulimia, um distúrbio perturbador, que leva seus portadores a se entupir de comida e depois vomitar, com graves consequências emocionais.

Teve uma coleção de casos amorosos, logo a partir do nascimento do segundo filho, Harry. Quando podia, envolvia os amantes na vida dos meninos. Dava escândalo, telefonava, chorava.

Tornou-se uma manipuladora astuta de jornalistas ávidos por qualquer coisa que partisse da mulher mais célebre do mundo – um jogo perigoso que contribuiu, finalmente, para sua morte num túnel de Paris.

Mas também era amada, adorada, idolatrada por um número enorme de pessoas. Mesmo com todos os seus defeitos.  Ou talvez por causa deles.

Uma princesa  que é linda, espetacularmente bem vestida, carismática, simpática com a plebe, emocionalmente frágil e poderosa ao mesmo tempo, cria uma combinação imbatível.

Camilla, em muitos aspectos, é o oposto. Uma mulher conhecida pela simpatia apenas pelos amigos e rejeitada pela opinião pública. Costumava fumar um cigarro ocasional, continua gostando de beber e de piadas fortes.

Desencanada com roupas, bem resolvida em termos emocionais e totalmente bem ajustada com Charles.  Além de nada interessada em ofuscá-lo, o que ocorria inevitavelmente com Diana.

E, esperta ou apaixonadamente, sempre disposta a afagar a parte mais sensível dos homens,  o ego. Isso ficou claro quando apareceram as gravações de telefonemas entre os dois, datados de 1992, quando ainda eram casados com os respectivos cônjuges.

As conversas ficaram mais conhecidas pelo teor sexual, em que Charles diz que gostaria de reencarnar como tampão menstrual ou as calcinhas dela – brincadeiras íntimas de casal do tipo que, expostas em público, ficam de um ridículo atroz. Menos divulgada são as partes em que Camilla diz reiteradamente como Charles é simplesmente maravilhoso.

PROJETO RAINHA

Desde o casamento, em 2005, Charles sempre se refere a ela como “minha querida esposa”. Entre seus assessores, é garantido que quem não comprar o “projeto rainha Camilla”, alegando a resistência do público, não terá carreira promissora.

O problema é a promessa que  Charles fez. Pressionado pela reação da opinião pública à morte da ex-mulher, o medo de que seu lugar no trono estivesse ameaçado e o desejo de aprovação a seu casamento com Camilla, ele disse que ela nunca seria rainha.

Ou seja, teria apenas o título de princesa consorte, uma  espécie de anomalia da época em que os  homens eram todos fortes e as mulheres, submissas – amplamente desmentida pelos fatos históricos, embora exigida pela tradição e as regras de sucessão.

Por este sistema, as mulheres que se casam, legitimamente, com herdeiros ou reis sempre se tornam rainhas consortes. Os homens que se casam com rainhas reinantes por direito próprio não se tornam reis, na maioria das monarquias, uma espécie de garantia de que não usurparão a predominância da mulher.

O marido da rainha Elizabeth II , por exemplo, tem o título, dado por ela, de duque de Edimburgo. Para se casar com a herdeira da coroa, teve que desistir de sua própria história, incluindo  o título de príncipe por ser neto do rei destronado da Grécia, um dos vários países da coleção de monarquias da casa de Oldemburgo.

Philip é tratado por príncipe por ser marido de Elizabeth, não por causa de sua linhagem.  A rainha Vitória, que era loucamente apaixonada pelo marido, o alemão Albert, conseguiu que ele ganhasse o título de príncipe consorte, o único caso na monarquia britânica.

Mesmo assim, Albert, como homem, passou a denominar a família real, que se tornou parte da casa real de Saxe-Coburgo-Gota. A coleção de nomes alemães, tradicionalíssimos embora  parecidos com uma divisão panzer, foi substituída há cem anos – outra data de hoje.

SE MEXER, ESTRAGA

Por causa da I Guerra Mundial e dos constrangimentos criados pelos laços de família e de sobrenome real entre os primos rivais, o kaiser Guilherme II na Alemanha e o rei George V na Grã-Bretanha, a casa passou a se chamar Windsor, nome do mais antigo palácio da monarquia inglesa.

Um jovem político chamado Winston Churchill teve um papel importante na transmutação do nome, uma mudança que exemplificou as várias adaptações que aconteceriam em todas as monarquias européias, para sobreviver aos tempos modernos.

Adaptadas à democracia, com monarcas que representam o Estado e não têm influência política alguma, os regimes monárquicos europeus são um anacronismo quase incompreensível para quem não vive neles.

Suécia, Noruega, Dinamarca, Espanha, Holanda, Bélgica e os minúsculos Luxemburgo e Mônaco são democracias parlamentares altamente funcionais, com chefes de Estado coroados.

Mas a Grã-Bretanha é o lugar que tem a monarquia onde, de novo, os arquétipos são mais fortes, tanto pelo cerimonial quanto pela longevidade de Elizabeth II. Quando se fala rainha, nem é preciso explicar que é ela.

Em geral, a regra é fácil de entender: se está dando certo, melhor não mexer. Quando começa a dar errado, como na Espanha, onde o rei Juan Carlos desabou em termos físicos e morais, depois de uma caçada na África, movida a petrodólares, com a amante, é preciso uma intervenção drástica.

Juan Carlos foi convencido a abdicar em favor do filho, Felipe, plenamente direcionado para um projeto de modernização e reconstrução do prestígio da monarquia.

TAPETE VERMELHO

A visita de Estado de Felipe e Letizia na semana passada à Inglaterra exemplificou bem os papéis diferentes dos monarcas atuais. As jovens, belas e elegantes plebéias que se casaram com herdeiros reais, como Letizia e Kate, praticamente são similares às estrelas do cinema que desfilam em grandes eventos.

Vestidos, sapatos, cabelos e maquiagem são de tapete vermelho. A grande  diferença é que as joias, monumentais, não são emprestadas por joalherias famosas, mas saídas dos tesouros reais.

Mulheres bonitas com roupas maravilhosas e tiaras de derrubar o queixo ganham muito mais espaço em todos os meios de comunicação. Os monarcas pronunciam discursos escritos pelas respectivas chancelarias e o cerimonial cheio de pompa ajuda a promover interesses bilaterais, de política externa e comerciais.

Como todas as famílias reais europeias, são primos em diferentes graus e a história em comum adoça diferendos como o de Gibraltar, a escarpada casquinha britânica em território espanhol.

Em geral, todo mundo fica mais contente se, em lugar dos monarcas, houvesse presidentes eleitos com mandatos fixos e, inevitavelmente, um projeto político partidário, mesmo entre aqueles que têm funções apenas cerimonial.

Se não estiver funcionando bem, sempre é possível apresentar um projeto de mudança constitucional eliminando a monarquia.

Basta ter os votos necessários no Parlamento – uma mudança inimaginável, hoje, na Grã-Bretanha, mas que chegou a ter alguns aspectos cogitados quando os escândalos conjugais de Charles e Diana abalaram a opinião pública.

FORA DE MODA

Quando Diana morreu, o ex-marido chegou a ter medo de ser atacado durante o cortejo fúnebre em que caminhou entre os dois filhos e o cunhado, Charles Spencer. Herdeiro do título de conde, Spencer foi riscado da família real depois do eloquente elogio fúnebre que fez a irmã, cheio de críticas ao tratamento reservado a ela pelos ex-parentes.

Charles precisou esperar oito anos para se casar, no civil, com Camilla. Por causa do peso da memória de Diana, ela não assumiu o título a que teria direito pelo casamento de princesa de Gales. Usa o equivalente feminino ao segundo título mais importante do marido, o de duquesa da Cornualha.

Fora a má vontade ainda predominante entre uma parcela importante da opinião pública, um fator que não deve ser subestimado, não existe nenhum obstáculo a que Camilla venha a receber o tratamento de rainha consorte.

Elizabeth II está com 91 anos e seu marido com 96. Para ele, as recepções de gala aos reis da Espanha foram uma espécie de cerimônia do adeus, uma das etapas da atual fase de transição da monarquia britânica. A previsão é de que Philip não participe de atos públicos.

Se continuar imorrível, a rainha também deve caminhar em direção a uma semi-aposentadoria, com períodos cada vez mais longos no seu castelo preferido, Balmoral, na Escócia.

Em algum momento Charles, que também vai fazer 70 anos, se tornará o rei mais idoso a assumir o trono britânico. E o público vai ter que engolir, talvez com resistência menor do que a imaginada, vencida pelo tempo e a simpatia natural despertada pelos mais velhos, a rainha Camilla.

Os assessores de imagem cada vez menos precisarão plantar reportagens simpáticas a ela e longas explicações sobre como foi traída inúmeras vezes pelo primeiro marido, o mulherengo serial Andrew Parker-Bowles. A palavra adúltera, tão fora de moda, desaparecerá no tempo.

Só os mais fiéis continuarão a se lembrar de Diana. De suas crises, seus ataques de choro, suas birras – quantas mulheres não se identificam com uma esposa traída e discriminada pela família do marido?

E só os muito, muito fieis se lembrarão que ela contou como passou a sofrer de bulimia: no primeiro compromisso de gala que teve com o noivo, Charles colocou a mão na cintura de Diana, no encanto saudável de seus 19 anos, e comentou: “Está com uns quilinhos a mais”.

Para estes, Charles e sua futura rainha jamais serão perdoados.


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