Trump a caminho de um impeachment?

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"Esqueça os mitos que a mídia criou sobre a Casa Branca. A verdade é que essas não são pessoas muito inteligentes e as coisas saem do controle.” A frase dita pelo personagem Garganta Profunda no clássico Todos os homens do presidente ressuscitou nas redes sociais americanas nos últimos dias como uma leitura contemporânea dos acontecimentos recentes na Washington de Trump. O filme, de 1976, é baseado no livro homônimo sobre a investigação jornalística que descobriu o esquema de espionagem e sabotagem ao Partido Democrata comandado de dentro da Casa Branca de Richard Nixon – Garganta Profunda era uma fonte do FBI que ajudou nas revelações dos jornalistas Bob Woodward e Carl Bernstein.

A lembrança de Watergate, que culminou na renúncia de Nixon, para evitar um impeachment, voltou por causa da crise vivida pela administração do presidente Donald Trump, a mais grave de sua curta existência. Em um espaço de 15 dias, o governo foi alvo de uma série de denúncias, divulgadas depois de o presidente demitir repentinamente o diretor do FBI, James Comey, na terça-­feira, dia 9. A agência de investigação federal apura as suspeitas de conluio entre membros da campanha de Trump e agentes da Inteligência russa, uma acusação que persegue o time do presidente desde antes da eleição de novembro. Ao demitir Comey, Trump foi acusado de querer obstruir as investigações do FBI por estar preocupado com o rumo das apurações. A acusação de crime de obstrução da Justiça torna Trump sujeito a um processo de impeachment.

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A situação de Trump se agravou depois que o jornal The New York Times revelou na terça-feira, dia 16, a existência de um memorando interno do FBI, assinado por Comey, em que o então diretor relata como Trump lhe pediu que “deixasse de lado” as investigações sobre o ex-conselheiro de Segurança da Casa Branca Michael Flynn. O general reformado foi demitido em fevereiro, depois da descoberta que tivera um encontro com o embaixador russo nos Estados Unidos, Sergey I.  Kislyak, antes de Trump assumir como presidente. Esse tipo de contato não é permitido pela lei americana. Como agravante, Flynn mentira para membros do governo sobre o encontro. Flynn é alvo também de uma investigação adicional, iniciada antes de assumir o posto na Casa Branca, sobre seu trabalho como lobista para o governo turco. “Ele é uma boa pessoa, espero que você deixe isso de lado”, disse Trump a Comey, de acordo com o memorando citado pelo The New York Times, produzido após um encontro um dia depois da saída de Flynn. Ainda foi registrado que em pelo menos uma ocasião o presidente cobrou lealdade do chefe do FBI.

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Na sexta-feira, dia 19, foi revelado pelo The New York Times que Trump chamou  Comey de “louco” durante uma reunião com oficiais russos na Casa Branca e disse que sua demissão aliviava a “pressão” quanto à Rússia. Uma notícia publicada quase simultamentamente pelo Washington Post afirmava que a investigação do FBI identificou um membro do alto escalão de Trump como suspeito.

Um memorando interno do FBI é considerado uma documentação oficial e, como tal, pode servir de evidência em um eventual processo judicial. “Um memorando de registro é considerado evidência crível sobre o que aconteceu. Não é conclusivo, porque é a versão de uma das partes da conversa. Se a administração quiser, ela pode tentar contestá-lo num julgamento de impeachment ou algo parecido”, diz Paul Pillar, ex-oficial da CIA e pesquisador da Universidade Georgetown. “Mas, em termos legais, não é considerado só a opinião de alguém ou ‘disse me disse’, é um documento relevante para ser considerado.” Pior: há vários outros memorandos, uma vez que Comey registrava todos os seus encontros com Trump, o que suscitou especulações de que novas revelações embaraçosas para o presidente podem surgir.

As pressões de Trump em relação a Comey foram divulgadas na sequência de outra revelação constrangedora para o presidente feita pelo The Washington Post. Segundo o jornal, Trump compartilhou com o ministro de Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, informações confidenciais obtidas pela Inteligência de Israel, sobre operações envolvendo o Estado Islâmico. Além de não ter sido autorizado pelos israelenses a passar adiante as informações, Trump entrou em detalhes que podem ter colocado em risco o responsável pela obtenção da Inteligência. Como a Rússia não é um aliado americano e ainda compartilha Inteligência com o Irã, inimigo declarado de Israel, o ato foi encarado com perplexidade. “A partir de agora, quaisquer serviços estrangeiros e governos com os quais os Estados Unidos cooperam e compartilham Inteligência provavelmente pensarão duas vezes antes de nos repassarem informação”, diz Pillar. A imprudência de Trump foi duramente criticada não só pela oposição democrata, mas por republicanos, como o senador John McCain.

Na sexta-feira, dia 19, as semelhanças das crises de Trump e de Nixon são várias: em ambos os casos, há um presidente de postura controversa, que ataca a imprensa e críticos com fervor quase autoritário e que pode ter ultrapassado os limites da lei para obstruir a Justiça. Por ora, porém, é prematuro dizer que Trump terá um desfecho parecido ao de Nixon. Enquanto as provas contra Nixon eram irrefutáveis, a ingerência de Trump nos assuntos da Justiça – ou de sua campanha com a Rússia – ainda precisa ser corroborada com mais investigações e documentos. “Há sinais prévios que sugerem que há um problema real. Mas só saberemos a extensão do problema quando as investigações se concluírem”, diz David Lewis, cientista político do Centro para o Estudo das Instituições Democráticas (CSDI, em sua sigla em inglês) da Universidade Vanderbilt. A continuidade das investigações representa, por si só, um grande problema para Trump: a capacidade política do governo ficará limitada enquanto o inquérito não for concluído. “Haverá um desvio da agenda do presidente e dos republicanos. Trump não vai conseguir debater legislação e programa de governo”, diz Lewis.

Trump se diz alvo de uma “caça às bruxas” sem precedentes, com motivações políticas e eleitorais. A Casa Branca alega que tudo não passa de falha de comunicação. Mas essa linha de defesa, tal a quantidade de vezes em que o presidente já meteu os pés pelas mãos, acaba sendo uma espécie de reconhecimento tácito de que Trump é um despreparado para lidar com as atribuições e responsabilidades de seu cargo. “Parte da dificuldade é que Trump não tem muita expertise em como o governo funciona”, diz Lewis. “Sua transição foi mal planejada e mal executada. Seus assessores chegaram aos postos despreparados e foram lentos em nomear o staff da administração. Tudo isso alimenta um ambiente de desconfiança e confusão, ainda mais porque as pessoas não sabem o que o presidente quer.”

Além disso, a profusão de vazamentos que emergem da máquina do governo, a principal fonte para a investigação dos jornais, é uma indicação de que a burocracia de Washington e os órgãos de Inteligência americanos estão em confronto aberto com o presidente. “Trump culpa a burocracia por sua imagem negativa. O presidente acredita que burocratas são supérfluos, não captam sua vibração política e não têm as mesmas prioridades que ele. Essa é uma relação tensa”, diz Stefan Halper, pesquisador da Universidade de Cambridge e ex-funcionário nos governos republicanos de Nixon, Gerald Ford e Ronald Reagan. Ao demitir Comey, com o agravante de tê-lo feito de forma humilhante, sem aviso prévio ao diretor, que só soube da notícia pela TV, Trump abriu um novo flanco nessa guerra. A decisão pode lhe custar caro.

Diante da pressão da oposição e da continuidade de vazamentos, o Departamento de Justiça americano nomeou na quarta-feira, dia 17, um investigador especial para tocar as apurações sobre os contatos da Rússia com aliados de Trump e a tentativa de ingerência do governo de Vladimir Putin nas eleições presidenciais americanas. O escolhido foi o ex-chefe do FBI Robert Mueller, respeitado por republicanos e democratas, por ter postura considerada criteriosa e independente. Como investigador especial, terá plenos poderes de apuração, como intimar testemunhas e documentos. Mas a autonomia de Mueller não é total. Ele estará subordinado ao Departamento de Justiça, comandado por um dos mais fiéis aliados de Trump, o ex-senador Jeff Sessions, do Alabama. A expectativa é que a investigação de Mueller se arraste, a portas fechadas, por meses.

No âmbito do Congresso, a probabilidade da abertura de um processo de impeachment ainda é baixa. O pedido foi feito pela primeira vez na tribuna da Casa dos Representantes na semana passada pelo deputado democrata Al Green. A lealdade da maioria dos republicanos, hoje a maior força no Legislativo, é uma blindagem para Trump no Congresso, ainda que uma comissão independente de investigação venha a ser instaurada. O apoio dos republicanos a Trump só deve sofrer abalos se novas revelações tornarem o custo de manter-se ao lado do governo muito alto para o partido, que disputará eleições legislativas no próximo ano. “Se chegarmos a um ponto em que fique aparente que ele cometeu atos que são base suficiente para pedido de impeachment e houver consenso entre a opinião pública, os republicanos vão se afastar dele”, diz Halper.

Enquanto a investigação é levada a cabo, a agenda política de Trump estará efetivamente paralisada. Com poucas conquistas para celebrar desde que chegou à Casa Branca, há apenas quatro meses, o desfecho da crise do governo Trump é incerto. Enquanto isso, o público pode esperar e se preparar para novos vazamentos dia sim, dia não.

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