Seria possível saber mais sobre a saúde de pessoas que viveram muito antigamente usando apenas… arte? Sim, é possível. Arte é uma expressão um pouco de nós mesmos sobre nós mesmos. Às vezes exagerada, às vezes fiel. A Antropologia de verdade (não gente que vai em banheiro público saciar seus desejos sexuais) procura entender grupos humanos e como eles viviam. Dá até para saber se eles sofriam de alguma doença congênita.

Sim, arte pode nos dizer muito sobre doenças. Não é nenhuma novidade. Usa-se expressões artísticas para conhecer as condições de doenças mentais dos artistas e até mesmo para saber de problemas reumatológicos de pessoas que foram retratadas em esculturas. Mas uma em particular nos mostra um caso médico mais pronunciado. Uma estátua que retrata um anão.

O dr. Kenneth Tankersley é professor-adjunto do Departamento de Antropologia e Geologia da Universidade de Cincinnati. Ele estuda uma estatueta, mas não uma estatueta qualquer. A estatueta em questão é um ornamento esculpida em um cachimbo de tabaco com, pelo menos, uns 2000 anos. Vamos à estatueta.

Esta estatueta foi descoberta em 1901, no Monte de Adena, no sítio arqueológico Chillicothe no condado de Ross, Ohio. É a mais antiga representação de um ser humano por parte de nativos daquela região, tendo aproximadamente 20cm de altura. O chamado Adena Effigy Pipe é o que o nome sugere: um cachimbo. O tubo é semelhante a outros cachimbos feitos pelo povo Adena na medida em que é oco por todo o seu comprimento, embora a abertura se reduza a um tamanho muito pequeno no bocal, localizado na cabeça. Também é semelhante a outros tubos esculpidos numa rocha metqamórfica derivada do argilito e muito usada pelos nativos para fazer cachmbos. Por isso é chamada de “pipestone”, encontrado nas colinas perto de Portsmouth, Ohio. A mudança abrupta da cor da parte cinza para a vermelha escura parece natural, embora as manchas na frente sejam provavelmente manchas do solo em que ela foi enterrada.

Como podem observar, a estatueta tem uma forma… estranha. O desenvolvimento da cabeça, dos braços e pernas não parecem ser os de uma pessoa “normal”. Seria um fator apenas artístico? Alguns argumentaram que isso seria representação de um indivíduo com acondroplasia, uma displasia óssea resultante de uma mutação genética que provoca alteração no desenvolvimento da cartilagem das placas de crescimento, acarretando má-formação de pessoas com braços e pernas curtos, uma cabeça aumentada e um tronco de tamanho médio. Um exemplo de alguém que tem esta condição é o ator Peter Dinklage, que quando não está dando tapa na cara de moleques regentes, está fabricando sentinelas para caçar X-Men.

 

Acontece que Tankersley não está tão certo disso. O que lhe chamou a atenção foi o pescoço da estátua que, segundo Tankerley, se parece muito com aquele bócio acarretado por mau-funcionamento a tireoide. Para tanto, Tankersley contou com a ajuda do dr. Frederic Bauduer, paleopatologista visitante da Universidade de Bordeaux, para examinar a estatueta com mais detalhes e cruzar referências com o que se sabe da referida época e lugar.

Ao examinar as características da estatueta, como comprimento de braços e pernas, Bauduer também prestou atenção na testa curta, e nenhuma dessas características condizem com um anão acondroplástico. Então, o diagnóstico mais acertado seria o de problemas na tireoide, e isso levando em conta a história e geografia da região.

Acontece que a área do Vale do Ohio possui solo e água esgotados de iodo, o que pôde ser referenciado como causado depois de um avanço de uma geleira da Era Glacial há cerca de 300.000 anos. Não apenas isso, antes que a referida região tivesse implantação de adição de iodo no sal na década de 1920, o Vale do Ohio fazia parte do chamado “cinturão bócio” dos EUA, onde a frequência de bócio (o “papo” causado pela disfunção da tireoide) era relativamente alta, apresentando incidência de até 15 casos por mil habitantes.

Mas calma. Ainda tem mais! Olhe de novo a estatueta. Perceberam que a figura está agachada e inclinada pra frente? Pois é, esta é anomalia comum de marcha encontrada em pessoas com hipotireoidismo.

Sim, antes que você pergunte, sim, eles deduziram isso por meio de uma estatueta. Só que não é uma questão apenas de examinar a estatueta. Toda a geografia e história da região condizem com os dados levantados. É um bom exercício de imaginação, quase uma investigação policial. No fundo, é o mesmo processo, pois está se buscando a verdade, e isso é fascinante.

Se bem que outros antropólogos buscam sua fascinação em outros… lugares.

A pesquisa foi publicada no periódico Medical Hypotheses.

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