Nas missões tripuladas que a humanidade fez à Lua – com exceção da última, a Apollo 17, e da Apollo 13, que não completou sua missão – uma mesma cena se repetiu todas as vezes. Enquanto exploravam o terreno e coletavam amostras, os astronautas tinham a tarefa de posicionar um sismógrafo na superfície lunar. Foi graças a esses equipamentos, utilizados para detectar tremores de terra, que a Nasa colheu dados de 28 pequenos abalos sísmicos na Lua entre 1969 e 1977.

Apesar de não ter placas tectônicas ou sofrer influência de vulcanismo, a Lua também possui atividade geológica considerável. Acreditava-se até então que os tremores registrados, de intensidade entre 2 e 5 na escala Richter, costumavam ser resultado de três aspectos principais: o puxão gravitacional causado pela Terra, chuvas de meteoros ou, ainda, mudanças bruscas de temperatura, que expandem e contraem o solo, criando falhas geológicas.

Mais recentemente, cientistas reuniram argumentos para afirmar que os tremores podem ser, também, causados por outro fenômeno: o fato de a Lua estar encolhendo. De acordo com a Nasa, nosso satélite natural perdeu 50 metros de seu diâmetro em algumas centenas de milhões de anos. Tudo porque o núcleo rochoso no seu interior está ficando mais frio – e, portanto, liberando energia na forma de calor.

Para entender esse processo, você pode imaginar o núcleo da Lua como se fosse uma uva. Após o satélite se formar, há bilhões de anos, a tal uva começou a perder energia e encolher. Mas, ao contrário da pele de uma uva de verdade, que pode se esticar toda e formar rugas, a superfície lunar é rígida – e, ao diminuir de tamanho, acaba se partindo. Com a quebra das camadas de rocha, surgem fraturas no solo da Lua. O núcleo, ao perder calor e libera energia na forma de tremores de terra.

Durante muito tempo, acreditou-se que esse processo de resfriamento tinha acabado, e as falhas observadas na superfície da Lua formadas há centenas de milhões de anos. Isso começou a mudar a partir de 2009, quando astrônomos começaram a fazer imagens da superfície da Lua com o LRO (sigla para Lunar Reconnaissance Orbiter). As imagens pareciam revelar o contrário: muitas das falhas tinham poucos milhões de anos de idade – quase nada, em termos astrônomicos – e poderiam continuar ativas.

Um estudo publicado recentemente na revista científica Nature Geoscience resolveu usar um banco de 12 mil imagens captadas pelo LRO para testar essa hipótese. Para isso, cientistas criaram um algoritmo capaz de calcular o epicentro de cada um dos tremores lunares captados durante as missões Apollo, entre 1969 e 1977.

A ideia era entender se eles poderiam ter alterado o solo lunar, causando novas fissuras em alguma das 3,5 mil falhas detectadas pelo LRO. Bingo: algumas dessas fissuras de fato tinham relação com abalos captados pelos sismógrafos da Nasa. Da lista original de 28 tremores captados há quase 50 anos, cientistas identificaram oito que modificaram o solo em áreas próximas a esses pontos.

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Por via das dúvidas, o grupo fez outras 10 mil simulações, para calcular a chance de que o algoritmo chutasse esses locais e acertasse por coincidência. Eles descobriram que a chance de isso acontecer era de só 4%. Ou seja: o fato de a Lua estar encolhendo de fato pode explicar terremotos sentidos por lá.

“Para mim, esses achados demonstram que precisamos voltar à Lua”, disse Nicholas Schmerr, que participou desenvolveu o algoritmo usado no estudo, em comunicado. “Aprendemos muita coisa com as missões Apollo, mas elas cavaram apenas a superfície. Com o trabalho integrado de sismômetros mais modernos, podemos fazer grandes avanços em relação ao que entendemos da geologia da Lua”.

O fato de o satélite natural da Terra ser geologicamente mais ativo do que se imaginava pode trazer novos insights para futuras missões espaciais. Saber onde o local exato de uma falha ativa pode servir, por exemplo, para que se defina os pontos ideais para se estabelecer bases lunares ou aterrissar uma sonda. A próxima missão tripulada à Lua organizada pela Nasa está prevista para 2024. Temos até lá para compreender ao máximo o que cada um dos declives da superfície lunar pode nos dizer.

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