Exibida pela TV Globo, a novela Órfãos da Terra ilustrou, em seus primeiros capítulos, a realidade da população síria que convive em meio à guerra desde março de 2011. O sucesso do folhetim, escrito por Duca Rachid e Thelma Guedes, traz à tona ao Brasil o que o público geralmente não sabe ou ignora: um conflito bárbaro na Síria que já soma mais de meio milhão de mortos.

De acordo com dados divulgados pelo Observatório Sírio de Direitos Humanos (OSDH) em março deste ano, cerca de 511 mil de pessoas já morreram pelas mãos do governo de Bashar al-Assad, que comanda o país em regime ditatorial desde 2000. Antes de o combate tomar proporções tão preocupantes, porém, um jornalista brasileiro decidiu registrar os conflitos, mas acabou preso em território sírio.

Klester Cavalcanti, 44 anos, deixou São Paulo em maio de 2012 com o objetivo de se infiltrar no cerne da guerra, a cidade de Homs, a 180 quilômetros da capital da Síria, Damasco. Com visto e passaporte regularizados pelas autoridades brasileiras, o comunicador desembarcou no Líbano, onde teve ajuda de amigos para ingressar no país afetado.

Reprodução/Facebook

Klester Cavalcanti, 44 anos, esteve preso na Síria em maio de 2012

A jornada, porém, foi por água abaixo. Alertado do perigo que Homs representava — uma cidade completamente bombardeada –, Cavalcanti não deu trégua e prosseguiu na viagem. Porém, foi barrado ao chegar em seu destino. Torturado, assinou um documento em árabe — língua que não falava — e foi jogado numa cela, onde conviveu com mais de 20 homens por seis dias.

Dias de inferno

A história do jornalista — até então o primeiro profissional brasileiro a visitar Homs — foi contada por ele mesmo no livro-reportagem Dias de Inferno na Síria. Vencedora do Prêmio Jabuti de literatura, a obra foi publicada pela editora Benvirá, selo da Saraiva. Em quase 300 páginas, Cavalcanti ilustra o que o público brasileiro, distante do conflito, acompanha em Órfãos da Terra.

Reprodução

Dias de Inferno na Síria é um livro-reportagem escrito pelo jornalista Klester Cavalcanti e publicado pelo selo Benvirá, da Saraiva

Cavalcanti nunca soube por que foi preso, mas ao Metrópoles contou ter solicitado o tal documento às autoridades nacionais e internacionais. Porém, sem sucesso. “Entrei no país legalmente, respeitei todas as leis, fui preso, torturado e assinei um papel, mas até hoje não sei o que tinha escrito nele. E isso faz sete anos”, disse.

A respeito de Homs, mesmo em seu estado crítico atualmente, Cavalcanti pensa em um retorno. “Eu fiz amigos lá, e o povo sírio foi muito bondoso comigo, tanto na prisão quanto ao pessoal relacionado ao governo. Além disso, tenho vontade de reconstruir a cidade com os moradores de lá, mesmo ajudando a carregar tijolos”, declarou.

Apesar de não negar que sua jornada à Síria ocultasse uma missão suicida, Cavalcanti tranquilizou: “Antes de eu ir para lá fiz uma pesquisa enorme sobre a situação. E como nenhum jornalista brasileiro tinha mostrado as cenas da guerra, decidi arriscar e revelar ao mundo o lado humano do conflito, como a guerra transforma a vida das pessoas na cidade”.

A guerra

Bashar al-Assad assumiu o posto de presidente do país após a morte de seu pai, Hafez al-Assad, que governou a Síria de 1971 a 2000, também em regime ditatorial. Revoltada com a crise econômica, falta de emprego, corrupção exagerada e falta de liberdade política, a população iniciou, em 2011, protestos contra o atual comandante do país.

Na época, adolescentes pintaram muros da cidade de Deraa, ao sul, com mensagens de revolução. Foram presos e torturados, e o episódio gerou uma onda de manifestações em toda a Síria. Contudo, as forças armadas abriram fogo e deram início à matança.

No meio do conflito — com o qual os sírios exigiam a saída de Assad do poder –, muitas pessoas abandonaram o país e se tornaram refugiados. Em 2012, o confronto chegou de forma isolada à capital, Damasco, e em seguida a Alepo, maior cidade da Síria e de onde o ex-BBB Kaysar Dadour fugiu em 2011, e, em 2014, se refugiou no Brasil.

Kaysar Dadour

Garçom e animador de festas, Kaysar é hoje ator global e conquistou milhões de fãs com sua participação no Big Brother Brasil, em 2018. A história do sírio também foi um dos assuntos mais comentados na época do reality show, e foi quando o público conheceu a realidade de um refugiado.

Natural de Alepo, Kaysar deixou sua cidade em 2011, no início da guerra, e foi para a Ucrânia após ver sua ex-namorada e amigos morrerem. Desde então, o rapaz trilhou caminhos para resgatar sua família, que vivia diariamente com o conflito em Alepo.

Reprodução

Kaysar, participante do Big Brother Brasil 18, tinha o objetivo de resgatar seus pais, Diane e George Dadour, da guerra na Síria. A irmã dele esteve segura no Líbano

Como divulgado pelo Metrópoles no ano passado, não seria nada simples tirar a mãe, o pai e a irmã do país. Mesmo que tivesse dinheiro para passagens e outras despesas, a família precisaria lidar com o aeroporto de Alepo fechado. Além disso, teria de cruzar a fronteira sem o visto, e mesmo que fosse possível, precisaria do documento para entrar em um avião.

Porém, após a saída do BBB, Kaysar — que interpreta Fauze na novela da Globo — recebeu ajuda de vários órgãos nacionais, que facilitaram a viagem de seus entes queridos. Atualmente, moram todos em Curitiba, no Paraná. Enquanto isso, na Síria, a guerra passou a ser entre aqueles que apoiam Bashar al-Assad, como militares, e civis contrários ao governo.

Desembarque no Brasil

Ao desembarcarem em aeroportos brasileiros, os sírios podem ir à base da Polícia Federal, pedir asilo, obter um protocolo, uma autorização de trabalho e um documento de identificação nacional. A estimativa é de que 100% dos refugiados consigam ter seus pedidos atendidos. De acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ANHCR), 5,6 milhões de pessoas deixaram a Síria em busca de abrigo desde 2011.

Deixe uma resposta