Quem conheceu o presidente Jair Bolsonaro (PSL) na Câmara nunca apostou em sua capacidade de construir acordos políticos. Nos sete mandatos parlamentares em Brasília, o capitão notabilizou-se pelo comportamento individualista, arredio e agressivo com alguns adversários.

Como parlamentar, ele não participou da vida partidária, não relatou projetos importantes nem liderou bancadas. Com perfil desagregador, Bolsonaro jamais passou imagem de estabilidade – nem na política nem na economia.

Se alguém viu nele um líder capaz de pacificar o país e formar consensos, votou na pessoa errada. Esse eleitor estava mal informado, foi enganado ou decidiu apostar em um futuro incerto. O mesmo vale para o mercado.

No poder, em tese, havia a possiblidade de Bolsonaro mudar de conduta e agir como um governante com visão de conjunto e espírito conciliador. Em menos de três meses, porém, os efeitos do seu estilo provocaram danos significativos para a governabilidade, com desdobramentos temerários para a economia do país.

Os primeiros sinais contundentes da fragilidade da situação do Brasil apareceram nos últimos dias. Depois de sucessivos recordes, com fechamentos acima de 100 mil pontos, o índice Bovespa entrou em queda e terminou a semana com perdas de 5,45%.

O real refletiu as dúvidas do mercado em relação ao futuro da economia brasileira e o dólar voltou ao patamar dos R$3,90. Os contratos de juros futuros, outro indicador relevante para aferição da saúde financeira do país, e tiveram altas significativas.

Os números revelam que a economia brasileira, em alguns aspectos, voltou ao patamar anterior à transição de governo, quando o otimismo com a eleição de Bolsonaro melhorou os indicadores. A atuação do presidente, da família e da equipe mudaram a percepção da população, hoje mais pessimista. As últimas pesquisas de opinião identificaram queda acentuada na popularidade do presidente.

Previdência dos militares
Um fator que influenciou o mercado agora foi a reação negativa do Congresso à proposta de mudanças na Previdência dos militares elaborada pela equipe econômica. Combinada com uma recomposição dos salários, a iniciativa desagradou até mesmo segmentos governistas do Legislativo.

Mesmo depois desses resultados negativos, sem levar em conta a sensibilidade das relações com o Parlamento, o capitão e alguns integrantes de seu grupo enveredaram para um debate público com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). O ministro da Justiça, Sergio Moro, também fez cobranças ao deputado fluminense e, como resposta, teve o pacote anticrimes excluído da pauta prioritária.

Esse embate com Maia, um declarado defensor da reforma da Previdência, indica a falta de noção de Bolsonaro e sua turma com a importância de se cultivar boas relações com a cúpula do Congresso. Tratar o presidente da Câmara como um adversário denota desprezo pelo diálogo até mesmo com autoridades dispostas a colaborar com a governabilidade.

Pelos movimentos e pelas palavras dos atuais ocupantes da Esplanada – e de seus seguidores – nota-se certa arrogância, combinada com algum deslumbramento em relação ao poder. Essa é uma afetação comum a muitos novos governantes em Brasília. De modo geral, leva a um alheamento da realidade que só acaba quando perdem os cargos.

Soluções mágicas
Tentar impor soluções mágicas, sem as devidas negociações com os parlamentares, é um caminho bem pavimentado para o fracasso da política econômica e do governo. Logo, esse tipo de atitude apresenta-se como um atalho para crises graves.

O discurso da “nova política”, usado na campanha, mostrou-se vazio de conteúdo e sem diretrizes para orientar a atuação das bancadas governistas no Congresso. Fiel ao estilo brigador, o presidente parece apostar no confronto para fazer valer ideias e projetos.

Nessa prática, conta com a companhia dos filhos, o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) e o vereador Carlos Bolsonaro (PDC-RJ). Os três descendentes potencializam o tom afrontoso do pai, sobretudo no Twitter.

Tudo para dar errado
Do ponto de vista de quem tem interesse em aprovar propostas no Congresso, essa estratégia tem tudo para dar errado. Bolsonaro e equipe ainda não demonstraram como pretendem convencer deputados e senadores a aprovar medidas que, por diferentes razões, prejudicam vastos setores da população – desde abastados funcionários públicos até idosos moradores das áreas rurais.

De volta da viagem feita aos Estados Unidos e ao Chile, o presidente tem agora a oportunidade de assumir o comando da política para atrair o Congresso para suas propostas. Se não conseguir aprovar a reforma da Previdência, Bolsonaro disse, o Brasil quebra.

Pela posição que ocupa, o capitão é a única pessoa capaz de evitar esse desastre para o país. Mas, para isso, primeiro é preciso que ele demonstre vontade de governar junto com o Parlamento, como exige a democracia.

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