Esta semana foi marcada por um intenso debate e mobilização nas redes sociais frente ao abominável crime cometido contra um cão nas dependências de uma unidade do Carrefour em Osasco (SP) e à tão abominável postura da rede de supermercados diante do ocorrido.

De certa forma, a morte do animal mostrou que a sociedade não se anestesiou diante das violências cotidianas e ainda consegue indignar-se. O fato acabou também despertando-me uma reflexão sobre como os portugueses se relacionam com os seus bichos e quais sentimentos seriam despertados aqui.

Bem, a notícia brasileira não chegou a repercutir em Portugal. Acredito que a cota de notícias geradas por um presidente eleito, sua família e a equipe nomeada já constituem conteúdo suficiente sobre o Brasil para preencher páginas e páginas, deixando outros conteúdos relevantes de fora.

Em Portugal, tamanho o carinho que percebo dos portugueses pelos animais, ato semelhante provocaria enorme repúdio muito além das redes sociais e repercutiria sim na grande mídia, independente do supermercado ser um grande anunciante ou não. Já imagino o próprio presidente Marcelo Rebelo de Sousa, aqui chamado de Presidente dos Afetos, tamanha a sua proximidade com as pessoas, aderindo a um boicote à rede…

Em Portugal não me lembro de ver cães abandonados perambulando pelas ruas. Estão nos lares e passeiam com seus donos, presos à trela (que é como se chama a guia em Portugal). A chipagem dos animais é obrigatória, o que coíbe o abandono e facilita a localização do dono em caso de perda. Existe, inclusive, um novo estatuto jurídico dos animais que os reconhece como “seres vivos dotados de sensibilidade e objeto de proteção jurídica”.

A legislação estabelece multas e punições severas para quem agrida, mate ou roube um animal. As leis esmiuçam até casos em que os donos se separam e como deve ser confiada a guarda do animal, em prol do bem-estar dos bichinhos e dos filhos. Da mesma forma foi criada uma lei que regulamenta a presença de cães em restaurantes. Ótimo para quem possui um cãozinho. Ótimo para os donos de restaurantes que se propuserem a aceitar os animais em seus espaços.

Nós temos a Thai, a nossa rafeira (que é como os portugueses chamam os vira-latas ou cães sem raça definida). Ela veio do Brasil e, posso garantir, dá um trabalhão danado fazer a mudança do animalzinho de um continente para outro.

Fica até o alerta para quem quer migrar com seu pet. É preciso “chipar” o animal, vaciná-lo contra a raiva (não valem as vacinas das campanhas públicas de vacinação), aguardar a quarentena, fazer a sorologia e, aí sim, ele estará pronto para viajar. Tem toda a burocracia das companhias aéreas, papelada para cá e para lá, além da liberação no aeroporto na chegada aqui, e o animal precisa estar com toda a documentação em ordem. Em outras palavras, é preciso planejar-se.

Mas, no final das contas, é claro que vale a pena. E é aí que percebemos o carinho dos portugueses com os animais. Qualquer prestador de serviço, qualquer visita que venha em casa “faz festinhas” com a Thai, que é a expressão que traduz o “dar carinho, brincar”.

Num país com tantos idosos, muitos solitários, entendemos a importância de um bicho de estimação. Perto de onde moro, existe uma praça enorme, que todo fim de tarde é ponto de encontro dos cães da região. Sem falar daqueles parquinhos especiais, de areia, cercados e preparados só para recebê-los.

Todos os dias, saímos a Thai e eu, de manhã cedo e à noite, faça tempo nublado ou sol (chuva não vale!) para que ela exerça seu sagrado direito de cheirar todos os postes e muros e demarcar seu território. É o momento dela. Mas confesso que é um momento meu também, para me desligar das questões domésticas e do dia a dia, respirar fundo e refletir sobre a vida. Será a Thai que passeia comigo ou eu que passeio com a Thai?

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