O presidente João Goulart ainda zanzava tonto pelo Palácio do Planalto, sem saber direito o que fazer diante do golpe militar que acabara de sofrer, naquele fatídico último dia de março de 1964. Na noite seguinte, amparados pela truculenta máquina do recém-regime, homens do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) estavam à cata pelas ruas do Rio de Janeiro do temido militante de esquerda Carlos Marighella.

“Cuidado, que o Marighella é valente”, alertaria seus capangas o chefe da corporação, Cecil Borer, que conhecia o destemido comunista de outros porões.

Sabia do que estava falando. Quando Marighella fora preso e brutalmente torturado durante o primeiro mandato de Getúlio Vargas, Borer estava por perto, caçando outros “vermelhos” na praça, o casal Luís Carlos Prestes e Olga Benário. Alertados do “perigo”, os agentes da polícia política carioca foram impiedosos quando o cercaram desarmado num cinema da Tijuca, onde se escondeu durante a sessão da comédia Rififi no Safári.

“De pé, por trás e pela direita de Marighella, sentado na cadeira, um policial ordena-lhe que o acompanhe. Outro cerca-o por trás, pela esquerda. À sua frente, o terceiro mostra a carteira com as iniciais do Dops. Tudo num instante. O quarto, ao lado do que dá a carteirada, agacha-se e aponta o revólver calibre 38. Marighella pensa que vai morrer e grita: ‘Matem, bandidos! Abaixo a ditadura militar fascista! Viva a democracia! Viva o Partido Comunista!’”.

É assim, em ritmo de aventura, que começa a biografia Marighella, do jornalista Mário Magalhães, adaptada para o cinema por Wagner Moura, marcando a estreia do ator como cineasta. Destaque no Festival de Berlim em fevereiro deste ano, filme e livro surgem no atual cenário político brasileiro como uma das primeiras manifestações culturais de resistência ao governo vigente. Bem condizente com a trajetória desse personagem tão fascinante.

“Lançar ‘Marighella’ agora é um gesto de admirável coragem do diretor Wagner Moura e dos produtores, a O2 Filmes”, atesta o autor em entrevista ao Metrópoles, traçando proximidade da trama protagonizada por Seu Jorge com o estado das coisas que assola o país. “Mesmo sem ter esse o propósito, o filme fala ao presente ao contar uma história de resistência”, defende.

Sem juízo de valor
Com mais de 700 páginas, o livro, lançado em 2012, agora mais em evidência do que nunca, é resultado de prodigioso trabalho jornalístico do autor que dedicou quase seis anos exclusivos ao projeto. A pesquisa consistiu, entre outras coisas, em acessos a centenas de páginas de documentos de 32 arquivos públicos e privados de cinco países – entre eles, Estados Unidos, Rússia e Brasil –, além de 600 títulos bibliográficos e entrevista com 256 pessoas.

A grande habilidade do jornalista e escritor foi diluir um oceano de informações complexas, boa parte delas preciosas, numa narrativa leve e hipnotizante que suga o leitor para dentro das agitadas páginas do livro. A intimidade com o tema lhe permitiu traçar várias facetas desse baiano mulato de sangue africano e italiano e poeta iluminado de forte senso humanista, à revelia do guerrilheiro que um dia foi declarado inimigo público número um do regime militar.

“Ninguém é obrigado a amar ou odiar Marighella. Minha intenção foi oferecer elementos que permitam ao leitor formar o seu próprio juízo”, salienta o autor que trabalha agora na biografia de outro grande nome da história brasileira, o político Carlos Lacerda. “É um personagem espetacular, que vicia. Posso dizer que, a despeito de ótimos livros publicados sobre Lacerda, sua história ainda está para ser contada. Esse é o meu desafio”, garante.

Atualmente dedicando de corpo e alma aos projetos editoriais e atividades em torno da biografia Marighella, no bojo do sucesso do filme de Wagner Moura, Mário Magalhães acerta os últimos detalhes de lançamento de novo livro previsto para o final de maio. Espécie de uma “biografia de 2018”, projeto traça um panorama sobre o “frenético” e “perturbador” ano que passou.

De certa forma Marighella não deixa de ser um personagem injustiçado da nossa história? De que maneira o livro e o filme contribuíram para corrigir esse equívoco?
Certa historiografia empenhou-se em eliminar Carlos Marighella da memória nacional. Perdeu, mas não se entregou. Agora, difunde inverdades vulgares. Não dediquei nove anos da minha vida, o da produção da biografia Marighella, para julgar o protagonista. Não sou juiz, advogado ou acusador. Conto o que ele fez, disse e, na medida do possível, sentiu e pensou. Minha intenção foi oferecer elementos que permitam ao leitor formar o seu próprio juízo. Hoje, a maioria dos que deitam falação sobre Marighella não tem ideia de quem ele realmente foi. Obscurantistas declaram que as escolas o promovem. Pergunto: quem estudou Marighella na escola? Sua história foi e é omitida. De certo modo, ele continua a ser um maldito.

Até por sua natureza radical e rebelde Marighella parece ter tido trajetória mais autentica que a do Luiz Carlos Prestes…
São figuras históricas distintas, embora tenham pertencido por 33 anos (1934-1967) ao mesmo partido, o PCB. Prestes é o mais importante dirigente comunista da história do Brasil, além de personagem destacado do tenentismo. Marighella, em minha opinião, é o mais fascinante militante comunista brasileiro, goste-se ou não das escolhas que ele fez na vida.

De que maneira você acredita que o filme do Wagner Moura e a história dessa figura tão emblemática refletem no Brasil de disputas políticas tão acirradas de hoje?
O Wagner adquiriu em 2013 os direitos de adaptação cinematográfica do meu livro. Filmou de dezembro de 2017 a fevereiro de 2018, portanto no governo Michel Temer. O filme estreou em fevereiro de 2019, no Festival de Berlim. Chegará neste ano, em pleno governo Bolsonaro, aos cinemas do Brasil. A obra do Wagner não é um tratado histórico-sociológico. É cinema, com muita ação. Só vi umas cinco sequências, de 15 minutos ao todo. Adorei.

Marighella é lembrado como símbolo da luta contra a tortura. Num país em que o atual presidente reverencia torturadores, que peso tem a história deste revolucionário?
Marighella foi sim, comprovadamente, torturado durante 21 dias consecutivos em 1936, governo Getúlio Vargas. A história dele é ainda mais atual em 2019 devido ao governo de plantão. Jair Bolsonaro é um entusiasta da tortura; Marighella era contra, e foi torturado. O vice-presidente afirmou que o 13º salário é uma jabuticaba, uma aberração; Marighella batalhou pela introdução do que à época se chamava abono de Natal, o 13º. Sua memória é incômoda para o poder. É direito dos brasileiros conhecer sua história, o que não implica endossar suas ideias e ações.

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