Em 1986, o parlamentar argentino Raúl Baglini cunhou o “Teorema de Baglini”, segundo o qual “as convicções dos políticos são inversamente proporcionais a sua proximidade ao poder”. Esse gradual abandono das posições puristas — e a simultânea adoção de posturas mais convenientes — foi protagonizado nos últimos meses por Andrés Manuel López Obrador, que, desde setembro passado, quando iniciou a pré-campanha eleitoral mexicana, deixou aos poucos suas posições classificadas de “esquerda”, de inspiração socialista, e passou a afinar suas opiniões com áreas do centro e de centro-direita. Há poucos dias o candidato “esquerdista” foi eleito presidente, com 52,96% dos votos.

Esta foi a terceira vez em que López Obrador apresentou-se como candidato presidencial. Desde a primeira tentativa, em 2006, foi denominado ironicamente de “O messias tropical” por seus críticos. Populista, escorregadio — nunca deixou claras várias posições suas, entre elas se é católico ou evangélico —, egocêntrico, batizou sua multifacetada coalizão de partidos com o nome de Juntos Faremos História. Ele já foi rotulado de “autoritário”. Mas também foi classificado de “íntegro”, já que não está envolvido pessoalmente em escândalos de corrupção, ainda que diversos de seus assessores, ex-assessores e aliados estejam inseridos em vários escândalos. O escritor Jorge Zepeda Patterson o define como um político similar ao defunto caudilho argentino Juan Domingo Perón por “sua ambiguidade ideológica, sua capacidade para flertar por cima dos rótulos ideológicos e para conciliar setores ideológicos diferentes”. O presidente eleito é definido pelos analistas políticos como “um enigma”. Outros dizem que ele é um “populista pragmático”. Ou, como afirmou um veterano diplomata europeu que trabalhou no Brasil, na Argentina e no México, “López Obrador dança xaxado e tango ao mesmo tempo que entrega o cartão de visitas onde está escrito ‘professor de boleros’...”.

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Nem bem a contagem dos votos indicava que ele era o vencedor, e simultaneamente os candidatos rivais admitiam as respectivas derrotas, López Obrador fez seu discurso de vitória, em tom market-friendly, anunciando que nos próximos seis anos — duração do mandato presidencial — haverá “liberdade empresarial” e que ele não fará “qualquer espécie de confisco ou expropriação”.

Horas antes, com as pesquisas apontando que seria o vencedor, recebeu comentários positivos de entidades ícones de Wall Street, entre as quais o banco Goldman Sachs. E, embora López Obrador tenha batizado seu filho mais novo de Jesús Ernesto, em homenagem a Cristo e a “Che” Guevara, seu assessor para assuntos internacionais, Héctor Vasconcellos, declarou que o chefe sempre respeitou a economia de mercado.

No dia da eleição, quando os números indicavam que ele seria eleito, o presidente americano Donald Trump declarou pelo Twitter que acredita que terá uma boa relação com o mexicano. Horas depois conversaram por telefone, e Trump o elogiou. Um dia depois o presidente venezuelano Nicolás Maduro emitiu elogios a López Obrador, mas o mexicano — ao contrário do que fez com o presidente dos EUA — não entrou em contato com o líder bolivariano, de péssimo ibope na região, nos primeiros dias.

López Obrador é um representante que os analistas na América Latina começam a chamar de “esquerda conservadora”. Por um lado prega mais gasto social, ampliação da saúde pública, mais acesso dos menores ao sistema escolar, além de incentivos à pequenas empresas, maior espaço para as mulheres na política e uma genérica “defesa da soberania”. Por outro lado, se opõe categoricamente ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, à adoção de crianças por casais homossexuais e à legalização do aborto. Os movimentos progressistas na América Latina recebem um balde de água fria com a oposição de López Obrador a esses pontos.

Sua coalizão de governo, uma salada ideológica, ilustra bem como López Obrador concilia posições antagônicas: ele lidera o partido Movimento de Regeneração Nacional, com a sigla “Morena”, de esquerda, mas conta como crucial base aliada o Partido Encontro Social (PES). Em 20 de fevereiro, quando formalizou sua candidatura, López Obrador fez um discurso com abundantes referências bíblicas. Na sequência, o líder do PES, Hugo Eric Cervantes, também discursou. Na ocasião, disse que López Obrador “é para nós como Caleb a ponto de conquistar o Monte Hebrom”. (Caleb era um dos braços direitos de Moisés e um dos designados para ocupar a Terra Prometida.)

O segundo lugar nas eleições foi de Ricardo Anaya, candidato de uma união inédita entre o conservador Partido Ação Nacional (PAN) e o centro-esquerdista Partido da Revolução Democrática (PRD), que obteve 22,49% dos votos. Em terceiro lugar, pela primeira vez em 90 anos, ficou o governista — e de nome paradoxal — Partido Revolucionário Institucional (PRI), cujo candidato, José Meade, conseguiu apenas 16,4%, refletindo a péssima imagem do governo do presidente Enrique Peña Nieto.

López Obrador teve “carro completo”. Essa expressão da gíria política mexicana é usada quando alguém consegue um triunfo eleitoral avassalador sobre os rivais. Na Câmara de Deputados ele terá 303 cadeiras, em comparação às 203 de todos os partidos opositores. No Senado ele ficará com 70 postos, enquanto os opositores reunirão 58. Será a primeira vez em um quarto de século — desde o governo de Ernesto Zedillo — que um presidente mexicano obtém maioria parlamentar.

Além disso, a maioria dos estados mexicanos ficou sob seu controle, arrebatando do PRI e do PAN diversos de seus antigos feudos políticos. A principal conquista, depois da Presidência, foi o governo do distrito federal, com a eleição de sua aliada Claudia Sheinbaum, que removeu dali o PRD, o partido que até esta eleição havia sido o favorito da classe média progressista. Com 47% dos votos, Sheinbaum tornou-se a primeira mulher da história mexicana a comandar a capital do país, uma das maiores metrópoles do continente americano.

A vitória de López Obrador implicou reviravolta na política mexicana, já que infligiu uma dura derrota aos partidos tradicionais. Por trás disso, mais além do carisma do presidente eleito e de seu discurso populista, está “el hartazgo”, isto é, o irritado cansaço com a corrupção e o acomodamento da classe política tradicional mexicana. O país acumulava várias décadas de políticas econômicas fracassadas da direita e da centro-direita.

Independentemente das posições ambíguas de López Obrador, na política há mais de quatro décadas, esta vitória de um grupo que formalmente é denominado de “esquerda” indica uma interrupção na sequência de vitórias de representantes da direita e da centro-direita nas eleições presidenciais dos últimos dois anos e meio na América Latina.

Após a confirmação de sua vitória, López Obrador anunciou uma bateria de medidas de austeridade. Ele declarou que quer transformar a residência oficial, Los Pinos, em um centro cultural. Para reduzir custos, moraria em um apartamento perto do palácio presidencial, no centro da capital. Também prometeu reduzir em 50% seu salário presidencial e o dos ministros. Além disso, anunciou que venderá o avião presidencial, além de acabar com o foro privilegiado para os presidentes da República.

Um breve glossário se faz necessário para entender algumas expressões usadas com frequência por López Obrador:

Os Pirruris:
Como ele se refere aos tecnocratas. Pirruris é um famoso personagem de comédias mexicanas dos anos 1970 interpretado pelo ator Luis de Alba. Ele parodiava os filhinhos de papai, que nunca saíam da casa dos pais em busca de independência.

Os Fifi:
O presidente eleito usa a palavra para indicar as pessoas ricas e delicadas — empresários, políticos ou cidadãos — que não estão dispostas a ouvir críticas.

Amlovers:
O termo não foi criado pelo presidente eleito, conhecido também por suas iniciais, “AMLO”, mas por seus simpatizantes, que se denominam dessa forma.