Um surfista de Copacabana pode virar colega de Frei Galvão no restrito clube dos santos nascidos no Brasil. Guido Schäffer morreu em 2009, aos 34 anos, quando pegava onda com os amigos na praia do Recreio dos Bandeirantes – bateu com a cabeça na prancha, o que provocou um desmaio em pleno mar. Terminava ali sua vontade de ser padre e uma trajetória bonita de dedicação ao próximo. Formado em Medicina, Guido foi trabalhar como voluntário junto às Missionárias da Caridade – uma filial da ordem religiosa de Madre Teresa de Calcutá –, tratando de doentes pobres. Fundou grupos de oração, estudou filosofia e teologia, preparando-se para o sacerdócio. Era tido como a bondade em pessoa, capaz de dar a própria roupa a um necessitado em dia de frio. Quando foi engolido pelas águas, houve missa de corpo presente na Igreja Nossa Senhora de Copacabana, diante de mais de mil fiéis.

E logo Guido ganharia fama de fazedor de milagres.

Um caso gravíssimo de diverticulite aguda, outro de doença nervosa que paralisava o corpo, ambos com uma recuperação rápida e improvável. O denominador comum? Preces fervorosas ao seminarista do surfe. Uma mulher que não conseguia engravidar disse que teve a graça alcançada com a mesma estratégia. Foram tantos os testemunhos que, em 2015, foi aberto oficialmente um processo de beatificação e canonização. O caso agora está nas mãos do Vaticano.

Guido Schäffer está só no início de um percurso burocrático que a Igreja impõe em suas análises de novos santos. Um mecanismo que teve sua versão inicial ainda no primeiro milênio depois de Cristo – quando ainda não tinha nada do protocolo que a Santa Sé exige nos dias de hoje.

Do bispo ao papa

A canonização é um ato oficial da Igreja declarando que um de seus membros é merecedor de culto público e que vai ter seu nome incluído na lista dos santos reconhecidos. Entre os séculos 6 e 10, já havia um procedimento para isso bastante informal – e muitas vezes com uma simples ação localizada. Devotos de um mártir ou eremita, ou indivíduo da melhor qualidade, faziam uma petição ao bispo do lugar. Se o bispo achasse que o pedido tinha sentido, permitia que o cadáver do homem ou da mulher fosse desenterrado e transportado para um santuário mais arrumadinho. E o novo santo ganhava uma data festiva. Pronto, não era tão difícil assim.

Mas, conforme a Igreja foi se tornando uma instituição cheia de hierarquias, as autoridades eclesiásticas foram concentrando esse poder na figura do papa. O suíço Ulrico de Augsburgo (890 – 973) foi o primeiro a ter a honra de ser canonizado pelo número um da Igreja – que na época era João 15. Essa exclusividade, porém, só foi se tornar regra mesmo em 1234: ninguém mais podia ser canonizado sem aprovação papal. Uma condição que vale até hoje.

Isso tornou o processo moroso? Claro. Mas não necessariamente. Variava de acordo com o lobby do santo. Dependendo de quem defendesse o candidato, a canonização podia sair a jato. Foi o caso de São Francisco de Assis no século 13.

A trajetória do frade amante da natureza, que falava com os animais, não deixa dúvida: o italiano tinha mesmo todas as credenciais para ser santo. O escritor florentino Dante Alighieri diria que ele foi “uma luz que brilhou sobre o mundo”. Francisco pregava a pobreza radical como imitação do exemplo de Cristo e instrumento de purificação, seguindo a linha dos antigos ascetas; mas, diferente deles, prezava a alegria no contato humano.

Chamava a todos de irmãos, incluindo aí o Sol e a Lua, o vento, a água e o fogo. Tratava dos leprosos, dos mais pobres entre os pobres, fazia seguidores com uma facilidade incrível – como Santa Clara, por quem tinha um afeto especial. Os relatos sobre sua vida inspiraram outros que se tornariam santos – como Inácio de Loyola, o fundador da Companhia de Jesus.

São Francisco de Assis foi um santo inquestionável. E tinha um admirador no posto mais alto da Igreja. Um ano após sua morte, um conhecido seu, antigo cardeal que protegia a Ordem Franciscana, virou papa: Gregório 9º (o mesmo que estabeleceria a regra de que só os pontífices máximos podiam autorizar novos santos). Gregório não perdeu tempo em mobilizar toda a máquina sob seu comando de modo a agilizar as coisas.

Entre as primeiras ações como papa, ordenou que escrevessem a hagiografia do frade e orientou os fiéis a contribuir para a construção de uma igreja em Assis, no centro da Itália, para onde seria feito o traslado do corpo. Francisco morreu em outubro de 1226. São Francisco nasceu para a veneração dos fiéis em julho de 1228, quando o papa declarou formalmente sua canonização. Um intervalo de menos de dois anos.

Minha religião, minhas regras

O processo do santo italiano não seria tão veloz se tivesse começado três séculos depois. E a culpa seria de Martinho Lutero (1483 – 1546), o monge alemão que contestou os dogmas da Igreja com sua Reforma Protestante. Entre as práticas questionadas por Lutero estava o culto aos santos, que ele considerava idolatria abusiva. “Essa honra pertence somente a Deus”, afirmou. O ataque do religioso – que acabaria excomungado – fez com que a Igreja Católica nunca mais fosse a mesma. De cara, provocou uma reação no sentido de fortalecer seus dogmas – a Contrarreforma –, mas também acabou sendo estímulo para uma autoanálise.

E isso incluía os critérios da canonização. Nas deliberações que saíram do Concílio de Trento – uma série de encontros da Igreja na Itália, de 1545 a 1563 –, ficou estabelecido que os bispos deveriam exercer maior controle quanto à veneração dos santos. Precisariam investigar mais a fundo os exageros quanto aos poderes atribuídos a eles e também conscientizar os cristãos de que nem tudo é festa: as bebedeiras nos feriados santos deveriam ser desestimuladas.

A Contrarreforma também acabou criando um perfil de quem poderia ser santo. Mulheres eram minoria – para chegar lá precisavam ser aristocratas ou fundadoras de alguma ordem religiosa. Mesmo entre os homens, teólogos e freis de destaque tinham prioridade. Ainda mais se fossem ardorosos pregadores da… Contrarreforma. Já pessoas que não fossem ligadas à Igreja tinham chances mínimas.

Essa linha de botar ordem e evitar excessos resultou numa nova autoridade da Igreja, específica para supervisionar a questão: a Sagrada Congregação para os Ritos, criada em 1588. Esse pessoal aumentou a burocracia para a eleição de novos santos, que ficou mais demorada, e ainda estipulou que ficava proibido até ensaiar uma veneração a alguém antes da autorização de Roma. Mas aí também dependia do cultuado.

Muitos dos grandes santos da Igreja Católica nunca ganharam uma canonização formal, pois já tinham cultos estabelecidos – e aceitos – séculos antes. E nesse grupo entram desde os apóstolos de Cristo até um Doutor da Igreja como Santo Agostinho – assim eram chamados os teólogos reconhecidos por obras importantes para a formação teórica do cristianismo. Esses todos são intocáveis, blindados contra as mudanças de humor no alto escalão da Igreja.

Novo reforço a essa burocracia veio no século 18, quando o canonista italiano Prospero Lambertini – que se tornaria o papa Bento 14 – publicou a obra A Respeito da Beatificação dos Servos de Deus e a Canonização dos Beatos, que deixava a coisa toda ainda mais complexa. Para se ter uma ideia, as petições só poderiam começar 50 anos depois da morte do candidato – tornando improvável que houvesse testemunhas vivas de suas realizações. E todas as tentativas de avanço no processo deveriam ser duramente questionadas por um “Defensor da Fé”.

Essa linha dura persistiu por séculos e séculos, até que um dos papas mais populares de todos os tempos abrisse um sorriso para os aspirantes à santidade: João Paulo 2º (1920 – 2005). Se hoje os jornais mostram o papa Francisco canonizando gente como se não houvesse amanhã, é graças às modificações de Karol Wojtyla.

Do papa ao bispo

O polonês promoveu uma abertura que parecia o fim de um regime autoritário. Num movimento inverso ao da concentração de poder, na Idade Média, João Paulo empoderou os bispos locais, atribuindo a eles várias tarefas que antes ficavam apenas com o alto escalão. Agora, esses religiosos da base da pirâmide é que fazem a investigação da vida do candidato. Só aí é que o material vai para a análise do Vaticano. Em Roma, um relator da Congregação para a Causa dos Santos escreve uma biografia do aspirante e um relatório de suas virtudes, que serão analisados por teólogos, junto com relatos de supostos milagres.

De maneira geral – há exceções –, um único milagre já é suficiente para que o indivíduo seja considerado beato (leia mais sobre isso na próxima página); para ser santo, dois milagres precisam ser reconhecidos. Tudo ok até aí? Então a documentação já chega às mãos do papa. Só ele tem o poder de decretar que alguém é santo – mantendo a tradição que começou na Idade Média.

Como bom estrategista que era, João Paulo 2º tinha seus objetivos com essas mudanças. Ao envolver a paróquia local no processo de seus santos, aumentou o interesse e o comprometimento de padres e fiéis. Ele achava que a identificação de novos santos colocava em primeiro plano um dos grandes chamarizes da religião, que é ter seus super-heróis – a santidade seria a dimensão que melhor exprime o mistério da Igreja.

Assim, abriu a porteira para as canonizações. João Paulo 2º canonizou mais pessoas do que todos os papas juntos desde a Contrarreforma: foram mais de 480 santos. Era um recorde histórico até que o atual, Francisco, começasse a fazer canonizações coletivas (de uma tacada só, promoveu 813 italianos executados pelo Império Otomano).

Embora os críticos de Karol Wojtyla considerem que a medida desvalorizou o conceito de santo, o papa sinalizava que a religiosidade incondicional, o martírio pelos valores cristãos e o altruísmo não são coisas só lá da Antiguidade. São de todos os tempos. A mensagem é de que há santos entre nós e, se isso é verdade, eles não estão só nos mosteiros europeus ou nas catacumbas de Roma. João Paulo 2º fez questão de canonizar pessoas de outras partes do globo, num movimento expansionista que continuaria com seus sucessores: Bento 16 canonizou o primeiro santo nascido no Brasil (Frei Galvão) e Francisco anunciou o primeiro santo argentino, seu conterrâneo.

Aliás, Jorge Mario Bergoglio parece gostar dos brasileiros: santificou de uma vez 30 mártires cristãos massacrados por holandeses calvinistas em igrejas do Rio Grande do Norte, em 1645. Ou seja, há esperança para os devotos do “Servo de Deus” Guido Schäffer: quem sabe, num futuro logo ali, ele venha a ser o primeiro santo surfista do País.

O CAMINHO DA SANTIDADE

Entenda, etapa por etapa, os trâmites da canonização – o processo do Vaticano que transforma meros mortais em santos da Igreja Católica.

1. Para ser candidato 

Pode ser indicado à canonização um fiel católico que em vida, na morte e depois da morte, gozou da fama de santidade, exercendo de maneira heroica as virtudes cristãs. Ganha pontos quem tem fama de mártir ou de taumaturgo (capaz de realizar milagres). Uma petição para início de processo só pode acontecer após cinco anos da morte do aspirante a santo.

2. Servo de Deus

Por pedido dos fiéis – ou por conta própria –, um bispo da paróquia de onde o possível santo morreu investiga se a fama procede. É ele quem decide se pode começar o levantamento de informações e testemunhos. Iniciado o processo oficial, o candidato recebe o título de “Servo de Deus”.

3. Advogado de defesa

Ainda na esfera local, um postulador – que deve ser perito em teologia, direito canônico e história – é encarregado de pesquisar a vida do Servo de Deus e recolher documentação acerca de sua santidade ou martírio.

3.1 Material da defesa

O postulador deve apresentar ao bispo…

 Uma biografia do Servo de Deus, contando suas atividades em vida, suas virtudes, eventual martírio e os milagres atribuídos a ele.

 Uma lista de possíveis testemunhas dos atos e dos milagres.

  Caso o candidato tenha escrito obras importantes para o cristianismo, isso deve estar junto na documentação. Esses textos serão examinados por censores teólogos, que vão verificar se não há nada ali contrário à fé e aos bons costumes.

3.2 Curas milagrosas

No caso de haver gente alegando uma cura inexplicável graças à intervenção do santo, o postulador deve incluir documentos médicos (ficha de hospitalização, exames de laboratório, diagnósticos…). E o bispo nomeia  médicos periciais para a avaliação. Esses médicos devem ser obrigatoriamente católicos apostólicos romanos. Mas não estão lá para assegurar milagres.  Seu papel é o de confirmar que um caso não tem explicação médica. Houve uma cura de uma mulher com um câncer de mama extremamente agressivo que não foi aceito pelos médicos como prova porque ela tinha 10% de chances de recuperação. O “milagre” teria sido obra da medicina. 

4. Fim do inquérito local

Com a documentação examinada e os depoimentos das testemunhas, os autos são enviados ao Vaticano por um portador – que tanto pode entregá-los em mãos quanto pela mala diplomática da Santa Sé. Junto, vai uma carta do bispo que presidiu o inquérito com suas impressões sobre a credibilidade dos testemunhos e a legitimidade da documentação.

5. Fase romana

Terminado o inquérito na alçada do bispo, o processo passa às mãos da Congregação para as Causas dos Santos, já no Vaticano. Se o papa fosse um presidente, essa turma seria seu Ministério da Santidade. Nela, atuam consultores de diversos países, peritos em história e teologia, e também médicos. Reconhecida a prática de atos heroicos pelo Servo de Deus, ele já muda de status: recebe o título de “Venerável”.

6. Beato

Se, além do heroísmo, há constatação de um milagre, o caso passa para uma congregação de teólogos, e em seguida para outra de cardeais e bispos. O parecer final dessas autoridades vai, finalmente, para as mãos do papa, que é quem bate o martelo: veneráveis que fizeram um único milagre são beatificados – um degrau abaixo da santidade.

7. É santo!

Caso o beato tenha mais de um milagre* constatado pela Igreja Católica, o papa – ou um cardeal delegado por ele – declara em missa solene que o antigo Servo de Deus chegou ao ponto mais alto que um cristão é capaz de atingir em sua vida religiosa: virou santo.

Como alguém vira santo?

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