Dentre as milhares de sessões de cinema que já frequentei na vida, uma em especial ficou registrada em minha memória como a mais engraçada – ou ao menos aquela em que mais soltei risadas histéricas (seguida de perto por uma do reboot de Star Trek de 2009, mas esses detalhes somente inbox): trata-se de quando assisti Bob Esponja – O Filme, em 2004. Quem estava comigo deve se lembrar no quão perturbadoramente atrapalhei a sessão me mijando de rir a cada “errrrrrrrrrrr” soltado pelo velho Bob. Quem me conhece bem sabe que sou uma pessoa boba. Muito boba.

E Bob Esponja Calça Quadrada é o cartoon mais bobo de todos os tempos. Isso não quer dizer burro, frise-se. O filme em questão, dirigido por Stephen Hillenburg, criador e showrunner da série em seus melhores momentos, marca o ápice da inventividade do desenho. Merecia maior reconhecimento. Depois disso, foi ladeira abaixo, mas a produção das três primeiras temporadas levou a uma nova idade de ouro para a televisão infantil. O criador de Bob faleceu agora, em 26 de novembro de 2018, de esclerose lateral amiotrófica, com apenas 57 anos. Foi um golpe especialmente agudo para mim.

Sou muito bobo, mas já era um adulto em 1999, quando a série estreou, e meu fascínio por Bob Esponja tem várias razões. Ainda hoje algumas de minhas redes sociais têm a simplória descrição “gosto de Bob Dylan, Bob Marley e Bob Esponja” (eternamente uma verdade). Cheguei a escrever um poema incompreensível chamado “Metafísica do Bob Esponja” (bobo). Ainda tenho o box de DVDs com a primeira temporada do desenho. Advogo, sem medo ou culpa, para esta produção, a posição de “melhor
cartoon de todos os tempos.”

Sempre gostei de desenhos animados infantis de teor humorístico/paródico. Lógico, cresci assistindo a eles. Dentre meus favoritos estão Os Flintstones, Manda-Chuva, Corrida Maluca, Looney Toones, Pink e Cérebro, Coragem o Cão Covarde e Apenas um Show. Todos eles reúnem um apelo histriônico ao absurdo, ao mesmo tempo em que comentam aspectos das pessoas e da sociedade. São a prova documental de que cartoons produzem conhecimento.

Bob Esponja não era diferente, mas aprimorou essa receita, achou o tom que considero perfeito e regeu a produção de uma nova era de cartoons que percebiam a ambiguidade presente na bobagentagem dessas narrativas. Basta dar uma espiada em Hora de Aventura, O Incrível Mundo de Gumball ou Clarêncio, o Otimista. O velho Bob é o primeiro desenho igualmente perfeito e adequado tanto para adultos quanto para crianças, sem que o universo de um atrapalhe o do outro.

Logicamente, a ambientação é importante. Hillenburg era biólogo marinho antes de entrar para o California Institute of Arts, e aplicou, alopradamente, sua expertise em seres aquáticos no curioso universo da Fenda do Biquíni. O apelo visual de Bob é alucinatório, psicodélico, alienígena. Os recursos audiovisuais são sofisticados, misturando live action, metalinguagem, clipes e muita, muita expressividade nas caretas e reações empáticas dos personagens.

Porém, ao contrário de Hora de Aventura, em que o worldbuilding é o fator mais importante para o carisma da série, Bob Esponja trabalha com situações elementares, mais arquetípicas, porém sólidas em suas demarcações do humor e diretas naquilo que vão comentar. Tudo isso graças à inigualável caracterização dos personagens.

Falo de Bob Esponja, “inspirado em Jerry Lewis” segundo seu criador, um funcionário ingênuo e alegre de uma lanchonete. De Lula Molusco, seu nêmesis, um artista medíocre, solitário e mal-humorado, colega de Bob, que odeia o trabalho tanto quanto o outro o venera. Há também Patrick, uma sonolenta e sonsa estrela do mar, melhor amigo do protagonista, que o faz inclusive parece inteligente. Também não podemos esquecer do Sr. Siriguejo, um capitalista incorrigível, e de Sandy, a esquila invocada, saudosa do Texas.

Pode-se argumentar que estes personagens são repaginações. Siriguejo, por exemplo, tem algo de Tio Patinhas. Porém, é o número de arranjos possíveis dos afetos entre eles que produz a originalidade de Bob. Uma aula na autoescola pode ser bufa, amalucada e nonsense, perfeita para crianças. Ao mesmo tempo, produz um raciocínio sobre civilidade que interessa aos adultos. A eleição do funcionário do mês é mote para uma disputa insana entre Bob e Lula Molusco, e também descortina um panorama sobre a precariedade empregatícia no mundo moderno, quase deprimente.

Divulgação

Stephen Hillenburg, o criador do Bob Esponja

 

O antagonismo entre os dois funcionários do Siri Cascudo, a antítese radical entre um quase literal bobo-alegre que só vê candura no mundo, e um gravemente rancoroso solteirão velho que toca clarineta e pinta autorretratos, é a pista para se entender a fricção de posturas assumida pela série. No fundo, Bob Esponja trata de epistemologias, ou seja, maneiras distintas de se reconhecer a realidade, e as posturas extremas produzem resultados engraçados, e às vezes intrigantes, sobre convívio e inserção social.

Meu episódio favorito, por isso, é justamente o Dia do Contra, em que Lula Molusco, querendo vender sua casa e preocupado com o vizinho inconveniente, inventa um dia em que se faz tudo ao contrário, na esperança de que o hiperativo Bob se controle. Em meio a inversões insanas, Bob Esponja passa a imitar o próprio vizinho rabugento, revelando uma rara consciência da natureza do Outro e mostrando o quanto eles representam um jogo interminável de espelhos invertidos.

Bob Esponja Calça Quadrada é uma festa do reconhecimento de todos. São redimidos os bobos, os ranzinzas, os nerds, os imbecis. Sua extravagância e alegria mostraram que a uma criança não cabe ficar apenas apresentando aventuras enfadonhas de He-Mens e Transformers. Como se sabe, ele abriu as portas para todos os tipos de diversidade no imaginário infantil. É por isso que argumento um luto ainda maior pelo triste falecimento precoce do gênio criador deste ícone moderno da cultura pop.

Deixe uma resposta