Marcelo Piloto entrevista
Marcelo Piloto (Imagem: Reprodução:Midiamax)

Ernesto Londoño, The New York Times
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Antes de ser autorizado a entrar na cela de prisão de um famoso barão da droga no Paraguai, preparei-me para uma revista corporal intrusiva. Mas o guarda magro parado em frente às grades mal me tocou, passando rapidamente as mãos por meus braços e minhas costas.

Eu estava na prisão para entrevistar Marcelo Pinheiro Veiga, que havia recorrido a uma jogada audaciosa para não ser extraditado para seu país natal, o Brasil: confessou uma série de crimes que cometeu no Paraguai.

Depois da revista negligente, entrei na pequena cela e me sentei a cerca de 30 centímetros de Veiga, perto o suficiente para notar que seu hálito estava fresco.

“O Paraguai é a terra da impunidade”, disse-me Veiga depois de descrever a longa carreira criminosa que o fez tornar-se um dos maiores contrabandistas de armas e drogas do Paraguai para o Brasil.

Horas depois, era difícil não interpretar essas palavras como um banho de sangue antecipado.
Logo depois que saí da cela de Veiga, em 17 de novembro, Lidia Meza Burgos, 18, foi levada para dentro, segundo policiais paraguaios. Com a simples faca de mesa que ele usava para comer, Veiga a apunhalou 17 vezes no pescoço, no peito e nas costas, matando-a.

As autoridades paraguaias acreditam que o assassinato foi uma escalada macabra na aposta do traficante para continuar sob sua custódia e evitar as condições de detenção mais duras que enfrentaria no Brasil.

Como um ex-repórter criminal e correspondente de guerra, entrevistei muitos homens violentos. Mas esse episódio me abalou como nunca antes.

Desde aquele dia, passei muitas horas reescutando trechos de minha conversa com Veiga, em busca de um sinal do que estava por vir.

Pensei incessantemente em Meza, e a terrível decisão que ela deve ter enfrentado sobre se deveria entrar no território de um homem responsável por tantos crimes monstruosos.

Também me vi refletindo sobre a indústria de narcóticos, uma praga que projeta uma sombra sobre minha vida desde a infância.

Nasci em Bogotá, na Colômbia, em 1981, década em que Pablo Escobar e outros barões da droga começaram a escrever um capítulo destrutivo da história do país.

Quando criança, fiquei entusiasmado quando meus pais levaram a família ao zoológico construído por Escobar na Hacienda Nápoles, sua grande propriedade perto de Medellín, onde hipopótamos, girafas e elefantes ajudavam a atenuar a imagem de um homem que matou dezenas de pessoas e envenenou a política do país de maneiras que perduram até hoje.

Como adulto, eu temia apresentar meu passaporte nos aeroportos do exterior. Por muito tempo ele pareceu carregar um símbolo de cocaína que me submetia, e a muitos de meus compatriotas, a temíveis salas de inspeção, onde as pessoas são obrigadas a demonstrar que não representam os piores estereótipos de seus países.

Das muitas correntes no comércio de drogas, os principais traficantes sempre foram os mais enigmáticos para mim. Muitos, notadamente Escobar, foram celebrados em filmes e séries de TV nos últimos anos.

Mas é relativamente raro questionar os chefões contemporâneos do tráfico, homens que dão as ordens mesmo atrás das grades. Homens como Veiga.

Ele parecia a fonte ideal para um artigo que eu estava escrevendo sobre como a violência do comércio de drogas no Brasil superou a do Paraguai, e fiquei contente quando o advogado dele arranjou o encontro.

Veiga parecia bem disposto quando me recebeu, usando a camisa de futebol amarela que a seleção brasileira transformou em símbolo de patriotismo. Sua cela era equipada com televisão, geladeira e micro-ondas.

Começamos a falar sobre o Rio de Janeiro, onde Veiga foi criado, e onde eu vivo desde 2017. Ele foi criado por pais que descreveu como sendo de classe média baixa em uma favela, uma das constelações de bairros pobres construídos nos morros da cidade.

Com 43 anos, Veiga disse que começou no crime em meados dos anos 1990, quando um grupo de vizinhos o convidou para participar do furto de carros.

“Eu queria aventura”, disse ele, deixando claro que sua família, embora com meios modestos, nunca passou necessidade.

A aventura durou pouco. Veiga foi preso em 1997 e condenado a 26 anos de prisão, por assalto a mão armada e outros crimes. Seus primeiros dias na cadeia foram talvez os mais formadores de sua carreira, segundo ele me disse.

Servindo ao lado de assassinos condenados, ele rapidamente concluiu que sobreviver na prisão exigia forjar alianças estratégicas.

“Eu era um simples ladrão de carros”, disse ele. “Precisava assumir uma postura que mostrasse que eu não era fraco.”

Isso significava forjar laços com alguns dos fundadores do Comando Vermelho, a organização de tráfico de drogas que controla grande parte do mercado no Rio de Janeiro.

Dez anos depois de condenado, Veiga adquiriu o direito de saídas temporárias da prisão. Ele fugiu na primeira oportunidade, em 2007.

Os relacionamentos que fez na prisão abriram caminho para que assumisse diversos papéis de liderança em pontos chaves do Comando Vermelho. Em 2012, enquanto as autoridades avançavam num plano ambicioso para restaurar o controle do Estado em áreas do Rio há muito dominadas por traficantes, Veiga se sentiu exposto e decidiu que estava na hora de uma grande jogada.

“Vim para o Paraguai”, disse ele, sua “única opção.”

No início ele se estabeleceu em Ciudad del Este, uma pujante cidade de fronteira que é uma das mecas do contrabando mundial.

Durante a maior parte de seu tempo aqui, o Paraguai foi uma terra maravilhosa para o crime, segundo Veiga. As propinas a policiais graduados eram tão comuns que as taxas para comandantes de diferentes patentes eram basicamente institucionalizadas.

Veiga disse que pagou a um policial graduado US$ 100 mil como adiantamento para estabelecer a confiança. O mesmo oficial ganhava US$ 5.000 por mês e seus subordinados, US$ 2.000.

Em troca, Veiga era avisado toda vez que as autoridades estavam perto de prendê-lo, permitindo que ele estivesse sempre um passo à frente enquanto organizava remessas de cocaína e armas por meio da fronteira.

Mas depois que a Agência de Combate a Drogas dos EUA (DEA) compartilhou sua localização com autoridades do Paraguai ele foi preso, em dezembro de 2017.

Veiga descreveu suas façanhas com um marcante sentimento de orgulho. Eu lhe perguntei se sentia alguma responsabilidade pela epidemia de violência que assola o Brasil, onde no ano passado houve um número recorde de assassinatos: 63 mil pessoas.

“Eu não quero ver mortes”, disse ele. “Não sinto satisfação com a morte. Mas infelizmente nesta guerra essas coisas acontecem.”

Quando a entrevista terminava, não vi sinal do que as autoridades disseram que aconteceu depois.

Pouco depois que saí da cadeia fortemente protegida, Meza foi deixada na entrada.

Veiga disse que a havia contatado pela primeira vez semanas antes, acessando um site paraguaio que publica anúncios de prostitutas, segundo Hugo Volpe, um dos promotores que investiga a morte.

O advogado Cesar Caballero, que representa a família Meza, disse que a adolescente foi recrutada por uma rede de prostituição meses antes, enquanto trabalhava como vendedora em um mercado no centro de Assunção.

Volpe disse que o ataque fatal foi claramente motivado por um desejo de Veiga de retardar sua extradição para o Brasil, onde o sistema carcerário é mais difícil de enganar.

Mas horas depois do crime Veiga foi levado de avião para o Brasil, para enfrentar o restante de sua pena de 26 anos, e os promotores paraguaios estão formando um caso que esperam que permita que seus colegas brasileiros o condenem pelo assassinato de Meza.

“Isso não trará Lidia de volta ou diminuirá o sofrimento da família”, disse Volpe. “Mas se não agíssemos a sensação de impunidade seria pior.”

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