Um dos grandes nomes da literatura contemporânea brasileira, Cristovão Tezza vem a Brasília neste sábado (4/8) para conversar com o público sobre livros e escritores que o influenciaram. O encontro será na exposição Eu, Leitor, em cartaz até 23 de setembro, na Biblioteca Nacional.

Autor do celebrado e premiado romance O Filho Eterno (2007), o catarinense radicado em Curitiba deu entrevista ao Metrópoles sobre temas diversos, das permanentes crises sofridas pelo mercado editorial ao promissor cenário da literatura nacional na atualidade.

Tezza ainda conversou sobre como é escrever em um Brasil turbulento e instável – seu mais recente trabalho, A Tirania do Amor, segue um economista de uma empresa investigada por corrupção –, detalhou obras que o marcaram profundamente e revelou seus hábitos de leitura, divididos entre livros de papel e três leitores digitais.

Leia a entrevista:

No programa da mostra Eu, Leitor, está previsto que você fale sobre Lord Jim, de Conrad, e a importância de Monteiro Lobato, Julio Verne e Arthur Conan Doyle na sua vida. Como esses escritores ajudaram a te formar como leitor?

Primeiro, pelo fascínio narrativo. Lembro que a leitura de A Chave do Tamanho, de Monteiro Lobato – o primeiro livro de maior fôlego que me lembro de ter lido inteiro –, foi uma alegria extraordinária para mim. Uma vida nova começou ali para mim. Passei a ler o Lobato inteiro, e não parei mais. Julio Verne e Conan Doyle (via histórias de Sherlock Holmes) vieram em seguida. São leituras típicas da primeira metade do século 20, que de certa forma “formataram” boa parte das cabeças dos anos 1950, da minha geração. E isso diz alguma coisa: são autores “iluministas”, que acreditam no poder da razão e da inteligência, intelectuais no sentido clássico da palavra.

Num segundo momento, já adulto, a leitura de Lord Jim, de Conrad, foi outra revolução, tanto existencial (Joseph Conrad influenciou minha primeira escolha profissional – fui para a escola de oficiais da Marinha Mercante do Rio de Janeiro, tentando ser piloto, um projeto que ficou pela metade…) como literária: o impacto de Lord Jim na minha cabeça delimitou de certo modo o que penso que a literatura pode fazer que nenhuma outra linguagem alcança. É um romance extraordinário, tanto temática quanto formalmente.

“Escritor não escolhe país”, diz autor Cristovão Tezza em entrevistaSeu romance Trapo ganha edição comemorativa de 30 anos neste mês. Qual o impacto desse livro na sua carreira de escritor durante os anos seguintes?

Trapo foi muito importante para mim, uma primeira virada na minha vida de escritor. Terminei de escrever em dezembro de 1982, e, naqueles tempos pré-internet, levei seis anos para conseguir publicá-lo.

Saiu em 1988, pela Brasiliense, então um dos mais importantes selos literários do Brasil, e teve uma repercussão muito boa, realmente excepcional para os padrões da época, ainda mais considerando que eu vivia exilado em Curitiba, uma cidade fora do eixo editorial relevante no Brasil (que era basicamente Rio, São Paulo e Porto Alegre). Naqueles anos, viver fora desse eixo significava um verdadeiro exílio literário. Depois de Trapo, nunca mais tive problemas para editar meus livros por editoras grandes. Foi uma libertação, digamos assim.

Dois de seus livros mais recentes, A Tradutora e A Tirania do Amor, lidaram um pouco com a situação turbulenta e crítica do Brasil nos últimos anos. Como é escrever em um país tão caótico e instável?

Escritor não escolhe país: é a língua que você fala e o espaço em que você vive. Do ponto de vista profissional, nosso atraso civilizatório é terrível para quem escreve, porque as crises editoriais são permanentes.

Patinamos há uma década com praticamente o mesmo número de leitores, a distribuição do livro é estrangulada, o ensino médio é trágico e a violenta recessão dos últimos anos não ajuda em nada a melhorar o panorama. Mas o ato de escrever não tem nada a ver com isso – ninguém deixa de escrever porque a recepção será difícil; fosse assim, a literatura brasileira já teria desaparecido completamente há muito tempo.

Qual o papel do escritor em tempos tão instáveis?

O mesmo em qualquer época: pela via da ficção, criar hipóteses de existência que deem algum sentido ao mundo, e partilhá-las com os leitores

Que avaliação você faz da literatura brasileira contemporânea?

Acho que um conjunto de fatores da vida brasileira, na virada do século 21, criou as condições de uma transformação bastante significativa na nossa literatura.

A relativa modernização do país a partir do Plano Real e da estabilidade econômica, o advento e a consolidação da internet e suas consequências culturais, uma certa internacionalização de temáticas e referências literárias e linguísticas, e o advento de uma nova geração não mais vivendo sob o ideário que marcou profundamente os anos 1970 e décadas seguintes, a revolução feminista e os movimentos identitários, tudo isso vem fermentando uma nova produção bastante rica, ainda que eventualmente imatura. Afinal, a literatura é uma arte lenta. Mas sou bastante otimista; há muita coisa de qualidade surgindo na nova literatura brasileira.

O que mais tem gostado de ler no momento? Usa gadgets como e-reader ou prefere o formato tradicional?

Como sempre, leio um pouco de tudo, mas tenho privilegiado bastante a leitura de ensaios, filosofia e história. Gostaria de ter mais tempo de leitura. O tempo é a mercadoria mais escassa para quem gosta de literatura… Sim, diariamente uso leitores digitais; tenho o Kindle, o Kobo e um iPad. Mas a preferência, sempre que posso, ainda é pelo livro do papel, ainda que as tabuletas digitais sejam cada vez mais imprescindíveis, pela praticidade e pelo acesso instantâneo, quando você precisa de uma referência, ou uma leitura urgente.

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