A gonorreia é uma das doenças sexualmente transmissíveis mais comuns do mundo. Cerca de 78 milhões de pessoas contraem a doença todo ano, segundo dado da OMS. No Brasil, o Ministério da Saúde estima em 500 mil infectados no mesmo período.

Apesar da alta ocorrência da doença, está no senso comum que ela só pode ser transmitida através do contato genital. Agora, um estudo feito por cientistas australianos provou que o beijo de língua pode também ser uma via de transmissão da gonorreia oral — ou gonorreia faríngea, versão da doença que ataca a garganta.

Publicado no periódico Sexually Transmitted Infections, o estudo coletou dados de 3.091 homens em um grande serviço de saúde pública em Melbourne, entre 2016 a 2017. Dentre eles, 6% tinham gonorreia oral. Todos os participantes eram gays ou bissexuais. Segundo o autor do estudo, Eric Chow, pesquisador do Centro de Saúde Sexual de Melbourne, esse recorte foi escolhido para a pesquisa porque a gonorreia é bem mais comum nesta comunidade do que em homens héteros na Austrália.

Para o estudo, os participantes tiveram que preencher um questionário descrevendo suas práticas afetivas nos últimos três meses. E eles precisavam ser bem específicos: elencar quantos  parceiros eles haviam beijado, mas sem ter relações sexuais; parceiros com quem fizeram sexo, mas não beijaram; e se tiveram aqueles que ganharam o pacote completo.

Os resultados mostraram que 95% tiveram parceiros com os quais beijaram e fizeram sexo, 70% tiveram parceiros apenas para beijos e 38% somente para sexo.

Analisando esses resultados, os pesquisadores atestaram que os participantes tiveram uma média de quatro parceiros só com beijos, cinco parceiros com beijos e sexo e um parceiro só com sexo no período analisado.

Mas o pulo do gato veio ao combinar esses dados com as informações dos pacientes que possuíam gonorreia oral: “Descobrimos que quanto mais pessoas um indivíduo beijava, maior era o risco de ter gonorreia na garganta, independentemente do sexo ter ocorrido. Esses dados desafiam as rotas tradicionais de transmissão aceitas para a gonorreia nos últimos 100 anos, em que se pensava que o pênis de um parceiro era a fonte da infecção na garganta”, escreveu Chow em um e-mail ao The Washington Post.

Apesar do resultado apontar que a gonorreia oral pode ser transmitida apenas pela língua, os cientistas são cautelosos, e afirmam que o estudo é observacional, e que mais pesquisas precisam ser feitas. A equipe de Chow, atualmente, está fazendo um estudo clínico para examinar se o uso diário de bochechos pode prevenir a gonorreia oral. “Se funcionar, pode ser uma intervenção simples e barata para todos”, acrescenta ele.

Hoje, a gonorreia é uma das DSTs que mais preocupa no mundo, devido a casos em que a bactéria transmissora (Neisseria gonorrhoeae) ficou super resistentes e não conseguiu ser combatida com os antibióticos atuais. Por isso é importante estar atento a todas as formas de transmissão.

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