O congelamento de óvulos é uma alternativa cada vez mais popular entre mulheres em idade fértil com alto risco (ou diagnóstico precoce) de câncer. Esta é uma forma de preservar o material genético para uma gravidez no futuro – já que um dos riscos da quimioterapia é a esterilidade.

Um óvulo congelado pode ser fertilizados in vitro mesmo anos depois. Não é um procedimento barato, é verdade – no Brasil, pode chegar a R$ 10 mil –, mas pode ser a única solução para quem não abre mão de gerar um filho.

Esta, no entanto, não é uma opção quando se trata de um câncer infantil. Uma criança não tem, ainda, gametas maduros. Mesmo que congelados, portanto, os óvulos de uma menina não poderiam ser fertilizados depois. O mesmo vale no caso dos espermatozoides: um menino que teve câncer muito cedo, por não ter gametas prontos, corre o risco de nunca ser pai caso se torne estéril com a quimioterapia.

Um novo estudo desenvolvido na Universidade de Pittsburgh, nos EUA, porém, pode ajudar a mudar esse cenário – ao menos para as crianças do sexo masculino. Cientistas provaram, usando um filhote de macaco, que não é preciso salvar gametas maduros antes da quimioterapia. Um tecido do testículo pode ser congelado e usado para restaurar a fertilidade do animal na vida adulta, quando ele estiver sexualmente pronto.

O primeiro macaco a nascer graças a um pedaço de testículo congelado veio ao mundo em abril de 2018. É uma fêmea da espécie rhesus, que foi batizada Grady. Um relato do caso foi publicado na revista científica Science. E nós explicamos melhor o que aconteceu – e a importância do caso para o futuro.

Macaquinhos inférteis

Garotos, quando entram na puberdade na adolescência, passam por mudanças hormonais, capitaneadas pelo aumento da testosterona. Esse hormônio, então, dá uma ordem para células-tronco presentes no testículo começarem a produzir espermatozoides. A radiação da quimioterapia e os medicamentos usados no tratamento de câncer podem matar exatamente essas células, causando infertilidade permanente.

Pesquisadores usaram um grupo de jovens macacos para testar uma possível solução para esse problema. A ideia deles foi remover um dos testículos dos macacos na infância, antes da puberdade. Esse testículo-teste foi cortado em vários pedacinhos e preservado a baixas temperaturas por diferentes períodos: alguns por cinco horas, outros por cinco meses.

Os macacos continuaram sua vida normalmente até o comecinho da puberdade. Foi nesse momento que eles tiveram o segundo testículo removido.

A partir desse momento, os pesquisadores tinham um grupo de macacos adultos, mas 100% estéreis – justamente o que eles precisavam para dar o próximo passo: verificar se o testículo antigo, retirado na infância, poderia ser retransplantado e restaurar a fertilidade dos primatas.

Os pedaços de testículo congelados foram colocados em baixo da pele das costas ou do escroto das cobaias. O local não importava: o que os cientistas queriam saber mesmo é se o pedaço enxertado, se voltasse a entrar em contato com o organismo dos animais, conseguiria  iniciar a produção de gametas masculino.

Os reimplantes de testículo aumentaram rapidamente os os níveis de testosterona no sangue dos macacos. Além disso, vários deles retomaram a atividade de gônadas normais: oito em cada dez tecidos enxertados produziram espermatozoides por conta própria.

Algum tempo depois, os cientistas removeram os enxertos e coletaram o esperma presente neles. Esses espermatozoides, por fim, serviram para fertilizar óvulos em laboratório.

Foram fertilizados, ao todo, 138 óvulos. 11 deles se desenvolveram o suficiente para serem transferidos ao útero de macacas. Um único caso vingou: Grady, que nasceu sem nenhum problema de saúde. “Agora que essa tecnologia deu origem a um bebê vivo e saudável, entendemos que ela está pronta para testes clínicos”, disse Kyle Orwig, professor responsável pelo estudo, em comunicado.

A expectativa, agora, é que a mesma técnica possa servir a humanos. Antes disso, porém, é importante eliminar o risco de que, após o tratamento, o câncer retorne. Isso porque caso alguma célula de câncer fique escondida no tecido de testículo retirado, ela pode ser congelada junto com a amostra e reintroduzida no corpo, fazendo os tumores retornarem – e os efeitos da quimioterapia irem para o ralo.

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