Para Sérgio Magalhães, não existe isso de se sentar, esvaziar a cabeça e deixar a criatividade fluir para compor. Sambista e mestre de obras, ele admite que “a mente atrapalha”. “É muito inquieta. Preciso estar com ela ocupada”, revela. Assim, em meio a maquinários ruidosos, nasceram algumas das 13 músicas de seu disco de estreia, Ouro do Meu Peito.

Todo Tempo É Pouco, por exemplo, descreve poeticamente o universo cotidiano vivido por esse trabalhador do samba: “Prumo, régua, esquadro, cabo pra machado / Plaina, prego, trincha, tinta cara e bom verniz / Cera de abelha, escada pra por telha / Bom se ter cuidado, se cair, faz cicatriz”.

Ouro do Meu Peito foi todo composto por Magalhães, com exceção da faixa Guardião, dividida com Clodo Ferreira. Fernando César assina a produção e direção musical.

As canções surgem, em geral, pela melodia. “Contagia o campo sentimental que estou vivendo no momento. Ou de alguém. Depois que passa a inspiração, vou ouvir, troco uma palavra ou outra. O barulho das máquinas nunca me atrapalha. Me incomoda se alguém me chamar para conversar”, diz o carioca radicado em Brasília desde 1993.

Aos 54 anos, Magalhães demorou bastante para organizar o primeiro disco. Fez seus primeiros sambas no Rio, quando participava de rodas musicais na Baixada Fluminense, onde nasceu. “Mas escrevia e guardava para mim. Não tinha pretensão de ser músico profissional, compositor, coisas assim”, explica.

O despertar veio lentamente, aos pouquinhos, entre uma serenata para vizinhos e participação em um festival de composições no Núcleo Bandeirante. Ele chegou em Brasília planejando “tirar as primeiras férias da vida”.

“Fiquei encantado com o clima e a paisagem. Resolvi que deveria criar meu filho, Vinícius, aqui”, lembra. Hospedou-se na casa de primos, em Sobradinho, região administrativa onde mora até hoje. Ele também tem uma filha, Mariane.

Finalmente, em 1999, Magalhães entrou para a Escola de Música de Brasília (EMB) e passou a circular de forma mais consistente na cena artística da capital. Encontrou um grande amigo e incentivador no violonista Jaime Ernest Dias, um dos arranjadores do álbum ao lado de Vinícius (violão de sete cordas), Lucas de Campos e Rafael dos Anjos.

“Eu era muito intuitivo. Não faço a menor questão de sentar para compor samba. As coisas acontecem espontaneamente. Estudar bolinha foi meio complicado”, diverte-se.

Em 2019, Ouro do Meu Peito deve ganhar uma temporada de shows. Algo que, Magalhães brinca, para ele é uma tortura. “Mas a gente faz porque é a função”, pondera. “Acho que sou o músico mais caseiro de Brasília. Coisa rara é me encontrarem em roda de samba”. Apesar da discrição, seu lugar ideal para mostrar o CD ao público é lá fora, ao ar livre.

Acho que o samba tem de ser na rua mesmo. É o lugar onde eu gosto. Precisa perder um pouco essa roupagem de elite

Deixe uma resposta