Passados 18 dias desde sua internação no hospital Albert Einstein, em São Paulo, para a cirurgia de retirada da bolsa de colostomia, até receber alta, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) retornou ao batente em Brasília nessa quarta-feira (13/2), onde irá se deparar com duas situações distintas: de um lado, há algumas prioridades correndo a contento, como a Lei Anticrime de Sérgio Moro. De outro, há verdadeiros abacaxis para descascar. O mais urgente envolve outra fruta: a suposta “laranja” usada como candidata a deputada federal pelo PSL.

O episódio trouxe novamente à baila as rusgas entre o vereador Carlos Bolsonaro (PSC), filho do presidente, e o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gustavo Bebianno.

Nessa quarta, o chefe da pasta negou ser motivo de instabilidade no governo após a repercussão da reportagem da Folha de S.Paulo sobre o PSL ter financiado uma candidatura laranja em Pernambuco, em outubro de 2018. Bebianno era o presidente da sigla à época.

“Falei três vezes com o presidente”, disse Bebianno. Carlos, que diz ter estado 24 horas ao lado de Bolsonaro, desmentiu o ministro: “É uma mentira absoluta de Gustavo Bebianno que ontem teria falado três vezes com Jair Bolsonaro para tratar do assunto citado”, tuitou o vereador. O presidente, até o momento, não se manifestou sobre o assunto.

Nos dias em que esteve internado, Bolsonaro, que procurou despachar por teleconferência, WhatsApp ou Twitter, teve que acompanhar à distância algumas polêmicas levantadas pelos auxiliares, que vez por outra tropeçam nas próprias palavras.

Vice protagonista
O vice-presidente Hamilton Mourão, que, na ausência do chefe ganhou protagonismo em Brasília, esteve com frequência nas manchetes. “O regime de 64 não foi ditadura, mas governo autoritário”, disse, nessa quarta, durante um seminário da revista Voto, em Brasília.

Mourão também se desgastou com a Frente Parlamentar Evangélica. Com 108 deputados e 10 senadores na atual Legislatura, esse grupo terá peso decisivo para a agenda do governo no Congresso Nacional. Os evangélicos não gostaram do vice se manifestar contra a transferência da embaixada brasileira em Israel para Jerusalém.

“Vamos cobrar (do Bolsonaro) o cumprimento daquilo que foi tratado. Se o Mourão está a serviço de algum grupo de interesse contrário a que isso aconteça, tenho convicção que ele perdeu essa queda de braço. Mourão é um poeta calado. Sempre que abre a boca cria um problema para o governo”, disse o deputado Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ), porta-voz da Frente.

O vice também entrou num bate-boca com Olavo de Carvalho, espécie de guru da família Bolsonaro. Questionado se lia as obras do escritor, Mourão soltou risos de deboche. Ao que Carvalho reagiu, no Twitter: “Mourão, você provou que é valente o bastante para combater um homem que está com o ventre aberto numa cama de hospital. Você é uma vergonha para as Forças Armadas, para a Maçonaria e para o Brasil”.

Quem é Chico Mendes?
O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, também foi alvo de polêmica, ao dizer que não conhece a história do líder seringueiro e ativista ambiental Chico Mendes, assassinado na cidade de Xapuri (AC) em dezembro de 1988.

“Eu não conheço o Chico Mendes. Escuto histórias de todos os lados. Dos ambientalistas mais ligados à esquerda, que o enaltecem. E das pessoas do agro que dizem que ele não era isso que contam. Dizem que usava os seringueiros pra se beneficiar”, afirmou o ministro, para quem Mendes é uma personalidade “irrelevante”.

Novamente, nesse caso, Mourão teve protagonismo. Questionado sobre o assunto, respondeu que Chico Mendes teve papel na história do Brasil, sobretudo no tema do meio-ambiente.

Dever de casa feito
Se há esses abacaxis e laranjas, há também quem fez direitinho o dever de casa. É o caso do ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro. Apenas um mês depois de tomar posse no cargo, o ex-juiz da Lava Jato apresentou o Projeto de Lei Anticrime, uma das bandeiras de campanha do presidente.

O texto da proposta anticrime será enviado ao Congresso Nacional para análise dos parlamentares nos próximos dias e faz parte das metas prioritárias dos 100 dias de trabalho do governo federal.

Paulo Guedes, superministro da Economia, também deixou de lado os arroubos verbais e se concentrou na reforma da Previdência. Tanto que o secretário especial da Previdência, Rogério Marinho, assegurou que a proposta está finalizada e deverá ser analisada pelo presidente Jair Bolsonaro até esta sexta (15).

A proposta vai ser apresentada à sociedade logo após o presidente se debruçar sobre o tem. Ele é quem precisa dizer se o material que nós produzimos esta adequado, dentro do pensamento dele

Secretário especial da Previdência, Rogério Marinho

Boicote e terrorismo
Na Câmara, também boas novas para o presidente. É bem verdade que o líder do governo, deputado Major Vitor Hugo (PSL), não começou bem em sua função. Enfrentou questionamentos sobre sua capacidade de articular a base. Tanto que já foi vítima de um boicote quando tentou reunir os líderes de partidos aliados pela primeira vez.

O encontro foi marcado via WhatsApp, disparado pela secretária de Vitor Hugo. Na mensagem, eram convidados os líderes da base “do apoio consistente e do apoio condicionado”. O texto irritou os parlamentares da base.

“Existem dois tipos de líderes? O que ele quer dizer com consistente e condicionado? O trabalho do líder é trabalhar a base, acalmá-la, ter diálogo e esse governo não tem diálogo algum com a Câmara”, afirmou o líder do PRB na Casa, Jhonatan de Jesus (RR).

Mas também é fato que Vítor Hugo ganhou alguns pontos com o presidente. Sob sua batuta, a base aprovou o projeto de lei sobre sanções para pessoas e empresas que lavam dinheiro ou cometem atos de terrorismo, não obstante as alterações impostas por alguns partidos ao texto final.

“Foi uma vitória importantíssima”, vibrou o líder. “O primeiro teste de fogo foi excepcional, em algo que é importantíssimo e também reforça a capacidade do Brasil de combater o terrorismo”, disse Vítor Hugo.

Sem céu de brigadeiro
Se dificilmente Brasília oferece céu de brigadeiro para quem ocupa o maior cargo da República, é certo que é bem melhor governar sem nuvens carregadas ou temporais. Ainda impossibilitado de dar gás total à sua gestão, pois ainda está em fase de recuperação da cirurgia, Bolsonaro precisa tomar as rédeas e preencher a lacuna do que aparentemente faltou à sua equipe nos dias em que esteve em convalescença: um líder.

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