Logo nos primeiros segundos de “Larte-se”, documentário da Netflix sobre a cartunista Laerte, ela confessa que não gosta de ser “objeto de estudo” nem de estar em frente às câmeras. Minutos depois, uma cena do mesmo filme a mostra tomando banho e fazendo as unhas na lavanderia de sua casa toda bagunçada. É uma amostra das contradições e do constante processo de descoberta que é ser Laerte, tema desse especial que estreia nesta sexta (19) na Netflix.

Escrito e dirigido por Eliane Brum e Lygia Barbosa da Silva, o filme mostra a intimidade a complexidade da vida da famosa cartunista que, em 2008, se assumiu como mulher transgênero e se tornou referência no assunto. Em um encontro com a imprensa em São Paulo, do qual o Papelpop fez parte, Laerte comentou a decisão de se abrir para o mundo e, mais tarde, para as câmeras.

“Parte de mim acha que isso é um processo meu e que ninguém tem nada com isso, e outra parte acha que todo mundo tem a ver com isso e eu tenho a ver com todo mundo também”, disse ela que, na adolescência, ainda como homem, sofreu por gostar de homens ao mesmo tempo que não tinha exemplos de pessoas que vivessem a homossexualidade de forma tranquila e aberta.

“Pra mim, ser gay era um tabu, quase uma maldição, porque esse assunto sempre aparecia como doença, crime ou pecado”, conta Laerte, cujo transgeneridade veio à tona a partir de Muriel, uma personagem dela que estava em constante transformação – e que, na maior parte do tempo, era Hugo, apenas um homem que gostava de se vestir como mulher. “Aí alguém veio e falou: ‘isso aí a gente faz e parece que você quer fazer também’. Foi aí que eu percebi que aquilo não era um recurso de roteiro, uma piada. Era algo pessoal”, explica ela. Para Eliane Brum, “as tirinhas testam a realidade antes da Laerte.”

Com a descoberta, a cartunista passou a viver como Hugo: aos sábados à noite, trocava a calça pela saia para se divertir com as amigas. As peças masculinas foram cedendo cada vez mais espaço a vestidos, acessórios, maquiagens e, por fim, aos artigos femininos. Uma das principais cartunistas da Folha de S. Paulo, Laerte sempre foi tido como corajosa por se dar essa liberdade. Mas ela discorda do termo.

“As pessoas usam o ‘coragem’ pra definir o meu processo e eu penso: eu levei 60 anos, gente! Só fiz isso depois que meus filhos estavam grandes, sabendo que eu teria pouca perda de público. Dei esse passo com a noção de que eu estava correndo muito pouco risco. O que assombra e aterroriza as pessoas é justamente o risco da carreira, da família, do bullying com os filhos na escola. E aí elas ficam só com o sábado a noite com as minhas amigas. Meu risco foi calculado. Já os jovens que expõem sua expressão de gênero e sexualidade enfrentam barras trágicas, visto que a quantidade de mortes no Brasil não é pouca. Situações em que a pessoa é expulsa da escola, da comunidade, é estigmatizada e é obrigada a se cobrir de couraças… É horrível.”

Ao reconhecer a importância de exemplos e expôr sua vida num filme, Larte pretende fomentar o debate acerca das questões de gênero.

“Não estamos falando só de travestis, trans e drags, mas da relação de homens e mulheres, da violência de gênero que envolve estupros a cada 20 minutos no Brasil, de assassinatos LGBTQ+, das mulheres no mercado de trabalho, na política. Desmitificar essa suposta sacralidade do gênero é um trabalho muito importante a ser cumprido por filmes como esse. Nem sempre a sociedade está preparada, mas é uma investigação que tem que ir a fundo. O filme presta um bom serviço no sentido de trazer um amadurecimento pra sociedade.”

Produzido pela Tru3Lab com direção de Eliane Brum e Lygia Barbosa da Silva, “Laerte-se” chega à Netflix nesta sexta-feira (19). E aí, ansioso para descobrir mais sobre essa mulher incrível?

O post “Não é só sobre trans. É sobre todo mundo!”, diz Laerte sobre seu documentário na Netflix apareceu primeiro em PAPELPOP.