Por Marcos Coronato

Fonte:

https://exame.abril.com.br/economia/o-ambientalista-cetico-m0040370/

A natureza vai bem, obrigado, e o segredo para mantê-la assim é acelerar o desenvolvimento econômico. Conheça as idéias do estatístico Bjorn Lomborg — e saiba por que ele é tão odiado pelos ecologistas

O empreendedor tecnológico do século 21 poderá faturar bem ajudando grandes companhias a poluir menos — mas só se as idéias do cientista político dinamarquês Bjorn Lomborg não fizerem sucesso. Se elas fizerem sucesso, caro empreendedor, o negócio é relaxar e se adaptar. No livro The Skeptical Environmentalist (O Ambientalista Cético), ainda sem previsão de lançamento no Brasil, o professor de estatística Lomborg, um provocador de primeira, mostra por que é, hoje, a pessoa mais detestada do mundo pelos ambientalistas.

Basicamente, Lomborg defende que as condições naturais do planeta estão melhorando. Ele se classifica como cético porque acha que organizações como o Worldwatch Institute e o Fundo Mundial para a Natureza (WWF) distorcem estatísticas para convencer-nos de que as coisas estariam, ao contrário, piorando — é o que Lomborg chama de ladainha ambientalista. O pesquisador passou quatro anos afogado em números e agora se sente confortável para afirmar, por exemplo, que é uma grande bobagem reduzir o ritmo da economia mundial só para diminuir a poluição. Essa redução poderá ser uma conseqüência do Protocolo de Kyoto, um acordo internacional que (se for adotado, em 2002) tentará fazer com que a emissão de gases poluidores, em 2012, seja 5% menor do que era em 1990. Implementar um acordo assim é ser ruim de economia. É gastar com um problema fantasma enquanto problemas reais, como fome, doenças e algumas formas de poluição, permanecem graves. E eles serão combatidos com mais crescimento econômico, não menos, disse Lomborg, em entrevista a Negócios EXAME.

Os argumentos do professor provocaram revolta entre cientistas da Escola de Economia de Londres, das universidades de Oxford, Stanford e da própria Universidade de Aarhus, na Dinamarca, na qual leciona. Seus críticos dizem que ele tenta calcular o valor em dinheiro de coisas que não podem ser avaliadas, como espécies de animais. E também que ele insiste em medir o impacto da ação humana sobre a Terra inteira (dado o tamanho do planeta, o impacto é quase sempre desprezível), e não sobre os locais que mais sofrem. Além do confronto no terreno das idéias, Lomborg recebeu uma torta na cara numa livraria em Oxford.

Independentemente da precisão de suas afirmações, Lomborg chama a atenção para duas questões importantes: a proliferação de estatísticas pouco confiáveis e a destinação nem sempre racional de dinheiro para combater problemas da sociedade. Ele lembra que as pessoas podem até se sentir bem com o aperto da regulamentação ambiental sobre as empresas — mas isso terá um custo, e o meio ambiente poderia colher benefícios maiores se o dinheiro fosse diretamente investido em soluções técnicas para os problemas.
Lomborg não se pretende economista nem especialista em ecologia. Só que, enquanto usa suas estatísticas (algumas claramente duvidosas) para bombardear argumentos ambientalistas, ele aborda alguns dos principais desafios que deverão enfrentar setores nascentes da economia tecnológica no século 21: sistemas de gestão ambiental, gestão de recursos, hidrologia, fontes alternativas de energia, biotecnologia, criação intensiva de peixes… A lista é longa. A julgar pela desistência dos Estados Unidos de ratificar o Protocolo de Kyoto, idéias como as dele tendem a ganhar influência. De passagem por Los Angeles para promover o lançamento de seu livro, ele deu a seguinte entrevista por telefone a Negócios EXAME:

O senhor diz que seria mais barato nos adaptarmos ao aquecimento global do que tentar impedi-lo. Essa posição não é arriscada demais, já que não há modelos matemáticos bons o suficiente para prever as conseqüências do aquecimento?

Definitivamente, o aquecimento global trará algum prejuízo. Meu argumento é que não há custos apenas com o aumento da temperatura — há custos também em tentar impedi-lo. Temos de olhar para custos e benefícios. O Protocolo de Kyoto é o máximo que o mundo mostra disposição de fazer no momento, e não deterá o aquecimento global. Teremos os mesmos problemas, apenas seis anos adiados, de 2094 para 2100. Isso custará um monte de dinheiro agora, para fazer um bem muito pequeno em 2100. (N.R.: os cálculos de Lomborg para 2100 extrapolam as metas definidas no Protocolo de Kyoto para 2012.)

Não haverá novos negócios com a demanda por novas tecnologias e com os investimentos dos países desenvolvidos nos subdesenvolvidos? Isso não compensará a redução na atividade industrial global?

É claro que haverá novas oportunidades de negócios, mas, se pensarmos na sociedade como um todo, veremos o seguinte: o Protocolo de Kyoto pesará sobre companhias de petróleo e energia, sobre companhias consumidoras de energia e sobre consumidores em geral. E beneficiará vendedores de tecnologias de energia eólica e solar, por exemplo. Minha opinião é que a parte da sociedade que vai perder será maior do que a parte que vai ganhar. Seria muito inteligente da nossa parte fazer a transição para fontes de energia renováveis nos próximos 50 anos. Os Estados Unidos gastam 200 milhões de dólares por ano com pesquisa e desenvolvimento dessas fontes de energia. Mesmo que esse gasto seja multiplicado por 10, chegando a 2 bilhões, um custo insignificante perto do custo do Protocolo, de pelo menos 150 bilhões. Faz muito mais sentido investir diretamente nas fontes de energia alternativas e estimulá-las do que taxar a economia inteira e trazê-la toda para baixo.

As falhas que o senhor aponta no Protocolo não significam que precisamos de outro tipo de acordo internacional, em vez de desistirmos de uma ação conjunta?

Isso poderia ser um sinal de que precisamos fazer mais ainda. Muitos dizem isso. Mas qual vai ser o custo? A menos que alteremos dramaticamente o mundo, teremos mais ou menos o mesmo aquecimento global.

O que seria essa alteração dramática? Ela é completamente impossível?

Se queremos mudar o mundo dramaticamente, se queremos reduzir o aumento da temperatura no final deste século a 1,5 ou 2 graus, então temos de parar de usar combustíveis fósseis nos próximos 20 ou 30 anos. Seria como construir outro mundo, com um custo tremendo. O custo do Protocolo de Kyoto é de 150 bilhões a 350 bilhões de dólares, um monte de dinheiro, mas ainda representa uma pequena parte do PIB global. Calculo que, para limitar a elevação da temperatura a 2,5 graus, seriam necessários 8,5 trilhões de dólares, um valor já duas vezes maior que os prejuízos que seriam causados pelo próprio aumento da temperatura. Se quisermos limitar o aquecimento a 1,5 grau, o investimento ultrapassa 30 trilhões de dólares. Está errado o raciocínio hei, temos um problema; vamos resolvê-lo gastando duas vezes mais do que o próprio problema custaria.

Uma nova estrofe da ladainha ambientalista, como o senhor a chama, talvez a mais forte no momento, é sobre a redução nos estoques de água doce e potável no mundo. Muitos geólogos já chamam a água de recurso estratégico do futuro e falam em guerras da água. Em seu livro, o senhor apresenta uma visão otimista do acesso crescente à infra-estrutura de água e esgoto. Só que o senhor não trata dos estoques de água.

O problema real do mundo é o desperdício de muita água na agricultura. As indústrias usam 20% da água, e a agricultura, 70%. Nos países do Terceiro Mundo, 90% da água usada, muitas vezes água potável, vai para a agricultura. Temos de escolher melhor como usar esse recurso, mas nós o estamos gerindo cada vez melhor. Já poderíamos gerar toda a água usada nas cidades do mundo com a dessalinização. Isso custaria 0,5% do PIB mundial e seria uma coisa incrivelmente tola, pois muitos lugares têm excesso de água disponível, mas é tecnicamente possível. Duvido que a água se torne uma questão preocupante no século 21. No caso da água para uso individual, o problema é infra-estrutura, e não falta de água, a não ser em casos muito específicos. As pessoas usam por dia de 2 a 4 litros de água potável mais 50 a 100 litros de água doce. Não sei sobre o Brasil especificamente, mas essa quantidade não é problema para quase nenhum país no mundo.

Cientistas afirmam que estamos extinguindo espécies — ou seja, genes — que poderiam virar riqueza no futuro, com a biotecnologia. O senhor afirma que a perda ocorre em ritmo bem mais lento do que dizem os ambientalistas, mas concorda que ela esteja ocorrendo, não?

Concordo que a perda de biodiversidade hoje é muito maior do que seria em condições naturais. Mas mostro no livro que a perda deve ser de 0,7% das espécies nos próximos 50 anos, e não de 25% das espécies, como temem alguns. É a diferença de uma catástrofe para um problema. Não acredito que isso representará uma grande perda de oportunidades futuras. (N.R.: a taxa de espécies ameaçadas é baixa se considerarmos todas as conhecidas, cerca de 1,7 milhão — a maioria, invertebrados, como insetos. Entre mamíferos e aves, a taxa das ameaçadas passa de 15%, segundo a IUCN, União Internacional para Conservação da Natureza, fonte reconhecida por Lomborg.)

O senhor acha que a conservação dessa riqueza biológica merece mais investimento?

Primeiro, acho que, depois de decidirmos quanto investir no combate a esse problema, o desembolso é obrigação dos países desenvolvidos. Mas é minha opinião pessoal que há coisas mais importantes a fazer com o dinheiro. A perda de biodiversidade não seguirá indefinidamente. No ritmo atual, em um século o mundo subdesenvolvido se tornará tão ou mais rico que o Primeiro Mundo de hoje. Ou seja, destruirá menos e investirá mais em proteção ambiental.

O senhor concorda que a pesca industrial tradicional está em um caminho insustentável?

Quando se tem um recurso de uso livre e alta demanda, é muito difícil geri-lo sem um governo mundial. Os especialistas dizem que poderíamos pescar 100 milhões de toneladas por ano se soubéssemos administrar o recurso, mas atualmente conseguimos pescar apenas 90 milhões de toneladas, porque somos ineficientes. Peixes, porém, não são muito importantes em escala global. Representam apenas 1% da nossa ingestão média de calorias diárias. (N.R.: a Organização para a Alimentação e Agricultura, da ONU, calcula que 200 milhões de pessoas dependam da pesca para sobreviver.)

O senhor acha que a aqüicultura, a criação intensiva de peixes e frutos do mar, poderá substituir a pesca tradicional?

Criadouros de peixes são uma solução contra a devastação do recurso. Você cria os peixes em vez de arrancá-los do oceano. É como privatizar os peixes, já que não temos um governo global para cuidar deles. Já é possível perceber alguma mudança na produtividade agrícola global por causa da biotecnologia e dos transgênicos?
É difícil dizer. Parece que temos um monte de promessas. Minha discordância básica, quando ouço as discussões sobre transgênicos, é: com o que estamos nos preocupando, afinal? Há pouquíssima ou nenhuma base em fatos para os medos a respeito desses alimentos. Certamente, devemos ser cuidadosos. Deve haver regulamentação, cuidado com monopólios — afinal, não queremos que surja uma Microsoft em alimentos básicos. Mas isso não tem nada a ver com a qualidade do alimento, e sim com questões de mercado.

O senhor defende que, se mantivermos a rota atual de desenvolvimento, o mundo ficará cada vez melhor. Nós já estivemos algum dia numa rota para pior?

Já estivemos numa rota para muito pior. Os ambientalistas fizeram um ótimo trabalho nos anos 60 e 70, avisando que precisávamos tomar cuidado. Várias ameaças foram reduzidas por causa desses avisos. Só que eles têm de perceber uma coisa: a preocupação com o meio não precisa ser sempre dramática. Já houve mais riscos do que há agora. As perspectivas terríveis apresentadas nos anos 70 foram um bom despertador. Mas elas não servem mais. Temos de aprender a ser céticos com as informações que recebemos.

 

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