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Jair Bolsonaro (reprodução)

Delmar Bertuol*, Pragmatismo Político

Se tivesse que resumir o Iluminismo em uma palavra, seria liberdade (sorte que não tenho que fazer isso, pois o movimento foi muito maior do que isso). Os “chatos” (pensadores/refletidores são desde pelo menos Sócrates assim taxados) dos séculos XV e XVI defendiam principalmente que as pessoas deveriam ser livres. Plenamente. Da conduta pessoal ao investimento de seu dinheiro. Esse pateticismo de “liberal na economia e conservador nos costumes” faz John Locke se revirar no ataúde.

Ainda visando à liberdade e quase que por paradoxo, dois “chatos” franceses da época e que inspiraram nossa república brasileira discorreram sobre limites para que todos tenham liberdade. Rousseau (“todo o poder emana do povo”, frase por ele proferida e que está no Parágrafo único do artigo 1º da nossa Carta Magna) defendia que as crianças que desconhecem o não serão adultos frustrados. Maquiavel, por sua vez, elaborou a Teoria dos 3 Poderes, em que um limitaria o outro. Em suma, para que todos gozem de suas liberdades, há que se ter barreiras. “Nãos”. Minha mãe, que desconhecia o Iluminismo, foi sempre rousseaniana. Alertava-me: a tua liberdade termina quando começa a do outro.

Li no jornal que um homem foi preso pela terceira vez em dois meses por tráfico de drogas.

Há poucas semanas aconteceram pelo menos três casos de agressões a professoras em Porto Alegre.

E, ainda nas escolas, proliferam-se os casos de violência entre colegas e mesmo contra professores. E, embora algumas pequenas sanções disciplinares, sempre desproporcionalmente mais leves do que o agravo, a verdade é que “não dá nada”.

Desaprendemos (algum dia soubemos?) a viver, a conviver em sociedade. Seja numa grande ou pequena cidade, num condomínio, numa praia, numa sala de aula. Não sabemos mais impor limites a nossos filhos. Não sabemos nos impor limites!

Queremos sossego, em dados momentos, mas ouvimos som alto. Queremos desfrutar a cidade, caminhar sem disputar espaço com os carros, mas não deixamos a nossa calçada em condições de trafegabilidade aos pedestres. Nos alarmamos com as estatísticas bélicas de morte no trânsito, mas ficamos indignados quando recebemos uma multa pela imprudência cometida.

De novo Jean Jacques Rousseau. Ele era árduo defensor da educação. Nesse sentido, o Bolsa Família é um programa reconhecidamente importantíssimo. Assim mesmo, no superlativo. Só que, do jeito que está, ele atende somente ao primeiro e óbvio passo da educação: fazer com que as crianças frequentem a escola. Só que ter escolarização não é o mesmo que ter educação. Esta é etapa posterior àquela. A primeira é tão somente o aluno frequentar a instituição, como disse. A segunda pressupõe um envolvimento e comprometimento do aluno e da família. Infelizmente, não é o que ocorre sempre.

Muitos dos alunos beneficiários do Programa têm assiduidade, mas não o comprometimento com a sua educação. E o que era pra ser seu suporte, apoio e, nos termos de Maquiavel, fiscalizador, a família, tampouco o tem. Por isso defendo que a concessão do Bolsa Família deveria estar vinculada a um relatório discricionário da escola, autorizando ou não o pagamento. Fatores como a conduta e a postura do aluno, assim como a efetiva participação dos pais na vida escolar do filho seriam as principais considerações. Sim, estou defendendo uma sanção, um limitador. Um “não”!

Embora não impomos limites a nós mesmos, sentimos também falta do limite do outro nas situações várias que passamos quotidianamente, seja com um vizinho ou com a segurança, com crimes. Nesse sentido, o discurso do presidente eleito preencheu uma lacuna, um desejo. E é legítimo exigir que os limites sejam respeitados, diga-se.

Ouvi colegas professores abrirem o voto pro Bolsonaro na ânsia de ter mais disciplina nas escolas, acreditando que na gestão dele terá uma general em cada escola, como se só o militarismo nos salvasse, pois seriam os militares premissamente imunes a desvios de conduta (desconhecem os malogros ocorridos na Ditadura e não divulgados devido à censura). Parentes lhe deram a confiança na esperança de que ele vai acabar com a bandidagem. Alguns falavam abstratamente em “ordem”. Eu entendo e até concordo com esses últimos. Ao falar de um modo geral da sociedade que está, palavra que ouvi, uma baderna, se referem à desenfreada permissividade que permeia as diversas searas da nossa convivência.

Vários fatores levaram à vitória do Bolsonaro. Todos não cabem neste texto. Mas estas últimas eleições podem servir prum diagnóstico de características e problemas da nossa sociedade. Independente do voto pessoal, seria bom refletir os motivos que levaram a esses votos.

A cultura do “não dá nada”, da falta de limites, da permissividade, enfim, deve estar nesse rol, pois, de fato, estamos carentes de limites (logo, de liberdade).Essa falta foi decisiva pra eleição presidencial. Pro bem ou pro mal. É aguardar.

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*Delmar Bertuol é professor de história da rede municipal e estadual, escritor, autor de “Transbordo, Reminiscências da tua gestação, filha”

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