A figura humana nunca está representada nas obras de Evandro Soares. Quando perguntado a respeito de tamanha ausência, o artista admite que, às vezes, surge brevemente uma pessoa, ou até duas, em seus caderninhos de esboço. Servindo de escala para as arquiteturas mirabolantes que o artista desenha.

Quando as linhas do grafite de Evandro Soares se tornam linhas de metal, porém, quando seus desenhos escapam da superfície do papel para assumir as três dimensões de uma sala, a presença humana invariavelmente se perde. Passa a ser apenas intuída.

Não que algo soe incompleto. Evandro cria, afinal, labirintos, escadas, andaimes, uma sequência de cômodos e recônditos e recantos, infinitas estruturas que parecem palmilhadas, preenchidas, habitadas, vividas.

“Esta é uma obra que dá caminhos ao observador”, diz o curador Mario Gioia, atravessando os espaços abertos por Evandro Soares dentro da Referência Galeria de Arte, minutos antes da abertura da primeira mostra individual do artista em Brasília. “Mesmo quando o traço dele não é fechado, mesmo quando sua linha se interrompe, há uma continuação mental, um volume que se completa na cabeça do observador.”

 

Traço Expandido é a primeira individual de Evandro Soares em Brasília. Mas ele já vem frequentando a Referência há alguns anos. Quando Onice Moraes abriu o atual endereço da 202 Norte, em junho de 2017, ele foi um dos artista convidados a colaborar numa coletiva. Montou um pequeno site specific no piso inferior da galeria.

Desta feita, espalhando-se em todo o primeiro piso da casa, Evandro pôde tomar inteira uma das paredes do andar e erguer uma obra que, acredita Mario Gioia, apresenta sua poética ao frequentador da Referência que ainda não o conheça. Evandro ali sobrepõe registros e linguagens: o desenho ganha volume com o traço original se tornando vinil adesivo colado à parede e se tornando também metal (e a sombra desse metal) a embaralhar desenho, escultura, arquitetura.

Nascido em Novo Mundo, interior da Bahia, Evandro vive e trabalha na cidade de Goiânia. Sua formação em serralheria o mantém muito próximo, ainda hoje, à parte mais manual, mais artesanal de sua arte. Está envolvido diretamente em todas as etapas de uma obra, do caderno de esboços ao serviço de emolduraria e à instalação na galeria, sem ajuda de terceiros, sem delegar tarefas.

Para este novo trabalho, tomou nota de todas as dimensões da parede, fotografou a sala, conferiu pessoalmente medidas e especificações. Mesmo assim, na hora de instalar o material já cortado no ateliê, teve que se adaptar ao que o mundo real apresentou, acolhendo pequenos desvios e mínimos ajustes.

 

Em seu caminho de Novo Mundo para o largo mundo da arte contemporânea, Evandro Soares vem justamente acolhendo desvios e ajustes. Descobriu o que seria sua pesquisa poética quase por acaso, nas horas de folga na serralheria em que trabalhava. Quando caiu em suas mãos um panfleto anunciando um concurso de arte, submeteu à apreciação um objeto que tinha feito. Deu certo.

“Fui selecionado. Então foi nesse momento que eu consegui meu certificado de artista”, lembra Evandro. “Por muito tempo, a arte não dava grana, a serralheria que me mantinha. Mas não teve jeito. Eu tive de pagar esse preço: rolou briga, rolou confusão, rolou intriga. Natural.”

Natural, ele diz, porque na real não havia muito a escolher. Para Evandro, estava claro que aquela brincadeira das horas de folga na verdade era o que sempre gostaria de ter feito. “E hoje ele é um artista conhecido em São Paulo, conhecido no Brasil”, nota Mario Gioia. “Hoje ele é um artista representado em Portugal, que vai para Lisboa no ano que vem e com certeza lá vai formar mais um pouco seu pensamento plástico-visual.”

Gioia diz isso e aponta para uma série de três recentes trabalhos de Evandro Soares que dão conta dessa contínua pesquisa que ele vem desenvolvendo à medida em que vive novas experiências. Impactado pela arquitetura vertical de São Paulo, Evandro começou a fotografar os altos edifícios e, pela primeira vez, usou a fotografia como suporte. As imagens foram impressas em chapas de alumínio que, por sua vez, trazem outros tantos dados para o hibridismo de linguagens que já se tornou sua característica.

 

Não é bem fotografia. Mas também não é escultura e nem objeto – e já deixou há tempos de ser desenho. Tampouco se trata de arte conceitual, à maneira dos chamados minimalistas norte-americanos, porque o contexto de Evandro é bem outro e seu envolvimento é por demais físico, trata-se de um artista de ateliê.

Evandro Soares carrega a “memória do material”, como diz Mario Gioia, referindo-se à sua experiência na serralheria desde a adolescência. Mas, a essa vivência, o artista acumula não apenas as novas experiências que a carreira impulsiona. Ele também estudou história da arte.

Cinco trabalhos feitos sobre papel, e até por isso emoldurados, completam o corpo desta exposição na Referência. Talvez representem o momento em que a filiação do artista ao desenho fique mais evidente. E também fique mais nítido o seu encaixe na história da arte.

Evandro Soares estudou durante anos as escadarias infinitas e a arquitetura impossível do holandês M. C. Escher (1898-1972). Quando dentro de molduras, debaixo de vidros, as obras de Evandro ao mesmo tempo se veem contidas fisicamente e se potencializam num outro sentido. Cabe ao observador completar ao infinito os traços aqui sugeridos. E talvez, provoca Mario Gioia, a figura humana a habitar esses caminhos seja você.

Bernardo Scartezini/Especial para o Metrópoles

Desenhos sobre papel e vinil adesivo sobre parede

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