Ser otimista é cientificamente recomendável – sua saúde agradece e seus problemas se tornam, muitas vezes, mais suportáveis. Mas nem todo mundo nasceu Pollyana. E isso é bom: de acordo com uma pesquisa do University College London (UCL), pessoas estressadas sabem receber e lidar com notícias ruins bem melhor do que quem está sempre de bem com a vida, apostando que vai tudo dar certo. 

O estudo concluiu que o viés do otimismo – isto é, a tendência a valorizar mais as boas do que as más notícias – pode desaparecer quando você se sente ameaçado. Estudos anteriores mostraram que o otimismo é bom para o bem-estar e motivação, mas se torna perigoso quando faz alguém subestimar os riscos sérios de certas situações. A partir disso, os pesquisadores resolveram investigar se a tendência inata que o ser humano tem ao otimismo pode variar dependendo de outras condições – como o estresse.

Para descobrir isso, rolou um experimento complicadinho. Acompanhe com calma: o primeiro passo dos pesquisadores foi usar estatísticas da polícia, do governo e de hospitais para calcular qual era a chance de um cidadão britânico passar por uma série de situações ruins – como um acidente de carro ou um clone de cartão de crédito – ao longo da vida. Esse seriam os valores de referência.

O próximo estágio foi convocar 36 voluntários e pedir para eles chutarem, sem saber dos dados reais, quais eram chances de um cidadão passar por cada uma dessas situações. Pessoas que julgassem as desgraças mais raras que o normal eram consideradas otimistas – já as que estimavam muito alto eram consideradas pessimistas.

O pulo do gato é que, antes de fazer as estimativas, esses voluntários foram distribuídos em dois grupos. Os membros do grupo azarado ouviram que, naquele mesmo dia, eles teriam que resolver problemas matemáticos muito difíceis – e depois dar uma palestra sobre um tema surpresa na frente de uma bancada de especialistas (o que, vamos combinar, é uma dobradinha bem estressante). O outro grupo precisaria apenas escrever uma breve redação sobre um assunto aleatório, sem compromisso. 

Resultado? Metade dos voluntários estava tensa e nervosa quando estimou o próprio risco de passar por certas situações. A outra metade, não.

Bacana. Depois que tudo isso acontecia, os voluntários finalmente tinham acesso as estatísticas reais. Eles podiam ver o quanto cada situação realmente era comum – e com base nisso saber se eles tinham chutado muito alto ou muito baixo.

E aí veio um novo round de perguntas. O mesmo desfile de desgraças: roubo de celular, atropelamento, fraude bancária etc. Dessa vez, porém, os participantes do estudo precisavam estimar a probabilidade daqueles coisas acontecerem com eles mesmos, e não com um cidadão qualquer. 

A análise dos resultados mostrou que os participantes mais relaxados, ou seja, que não precisavam fazer um discurso, internalizaram as boas notícias (estimativas mais positivas) melhor do que as ruins. E eles continuaram a subestimar riscos, mesmo depois de saberem que o evento ameaçador era mais provável do que eles pensavam. Em outras palavras: foram bobas. 

Já as pessoas que precisavam falar em público, e estavam estressadas ou ansiosas antes da tarefa, foram melhores em incorporar as más notícias e fazer suposições realistas. Elas não só aceitavam a realidade como usavam os novos dados para recalcular as estimativas que tinham que fazer no experimento.

Pois é: no final das contas, um pouquinho de estresse na vida pode não fazer tão mal assim – e ser sinônimo de alerta e lucidez. Só não vale exagerar na dose. 

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