A lenda do Rei Arthur é uma das histórias que mais foi adaptada para o entretenimento mundial, seja através de livros, filmes, séries, peças teatrais ou outros meios midiáticos. O forte cunho mítico e sem comprovações concretas de sua veracidade deram à história a possibilidade de receber diversas interpretações, leituras e narrativas alternativas à tradicional história que todos conhecem. Em Rei Arthur: A Lenda da Espada, vemos a história clássica do Rei Arthur contada de uma forma mais fantasiosa e moderna, graças à direção mais visionária de Guy Ritchie.

A trama conta a origem de Arthur (Charlie Hunnam), filho perdido do Rei Uther (Eric Bana) que cresce em um bordel na cidade de Londinium, que faz parte do reino do seu tio Vortigern (Jude Law). Ameaçado pela profecia que prevê o retorno da linhagem de seu irmão, Vortigern mantém a espada de Excalibur presa magicamente em uma pedra sob seus domínios, numa constante busca para obter mais poder e deter o retorno de seu sobrinho. Quando Arthur é revelado ao retirar Excalibur da sua pedra profética, Vortigern demonstra a verdadeira origem de seu poder e transforma seu sobrinho em um criminoso sob os olhos do reino. Cabe então a Arthur e seus fiéis seguidores deter o atual rei e conquistar o verdadeiro posto de Rei da Inglaterra.

Rei Arthur: A Lenda da Espada | Crítica

Assim como fez em Sherlock Holmes, Guy Ritchie faz mudanças na história que trazem uma modernidade e um frescor à lenda de Arthur como poucas obras souberam fazer. O cenário lembra o mundo fantasioso de O Senhor dos Anéis e Game of Thrones, com cidades e castelos grandiosos, criaturas mitológicas, a presença de Magos e outros tipos de elementos sobrenaturais, o que retira a classificação que o filme pode receber de um épico medieval mais sério e político. Essa mistura transforma o longa em um excelente blockbuster que brinca com escolhas narrativas que costumam agradar ao público mais jovem que adora lotar as salas de cinema do mundo todo.

Rei Arthur: A Lenda da Espada | Crítica

Guy Ritchie mais uma vez mostra sua identidade como diretor e repete elementos presentes em seus trabalhos anteriores. Está tudo em tela: explicações de cenas que irão acontecer ou já aconteceram, movimentos de câmera inesperados, flashbacks, flashforwards, transições rápidas de edição para comprimir um longo espaço de tempo em poucas cenas, montagens alternadas (quando vemos dois acontecimentos paralelos se revezando em tela) e outras técnicas que servem bem à narrativa. Ritchie costuma adicionar uma atmosfera moderna, enérgica e pop aos seus filmes e Rei Arthur é um exemplo claro de como ele consegue transformar até uma história da idade média em algo atual e contemporâneo.

Rei Arthur: A Lenda da Espada | Crítica

O principal acerto na sua abordagem é na identidade construída para o seu Arthur. Com um desenvolvimento marcado pela infância em um bordel, o protagonista da lenda assume uma identidade pseudo gangster em uma realidade que remete ao cenário underground de Londres, cheio de negociantes, operários, chefões e criminosos das ruas de uma grande cidade. Bebendo dessa fonte, o design de produção não faz feio, trazendo um visual interessante à produção, igualando o filme a outros do gênero de fantasia e medieval sem deixar de dar leves toques modernos à construção do seu mundo.

Rei Arthur: A Lenda da Espada | Crítica

Os figurinos são impecáveis, com belas roupas cheias de camadas, peles de animais e longas capas. Interessante observar como a maioria das roupas usadas por Arthur são brancas ou de tons claros para ressaltar a esperança que ele representa, em contraste com as roupas e com o cenário ao redor, sempre escuros, cinzas e sem vida. A fotografia de John Mathieson é sombria e o filme a utiliza bem através de longos planos de CGI, cenas de batalha com efeitos de slow motion e batalhas exageradamente grandiosas.

Rei Arthur: A Lenda da Espada | Crítica

A impressão que se tem é que Ritchie se inspirou em games modernos (como God of War) para criar suas cenas de ação, onde o jogador pode mudar a posição da câmera para a primeira pessoa, utilizar elementos mágicos (como a visão de uma águia para reconhecer o terreno ou atacar) ou executar uma determinada combinação de botões que vão acionar algum poder ou golpe especial para derrotar o inimigo (como as cenas em que Arthur utiliza o poder da Excalibur).

Rei Arthur: A Lenda da Espada | Crítica

A trilha sonora é outro ponto positivo do filme. Composta por Daniel Pemberton, ela casa perfeitamente com as cenas do filme, deixando a impressão de que tudo foi filmado para se encaixar nos ritmos e não o contrário. Com músicas imponentes, cheias de tambores, percussão com cordas, trombetas pesadas e vocais como assovios, sussurros e agudos, a trilha ajuda a trazer um clima moderno ao filme, fugindo do padrão já conhecido de filme épicos e de fantasia.

Rei Arthur: A Lenda da Espada | Crítica

O elenco entrega uma performance acima da média. Charlie Hunnam com certeza se destaca com um carisma que exalta o lado badass de Arthur, além do seu espírito cafajeste, bem humorado e justo. Jude Law interpreta um vilão ameaçador e perturbador, com atitudes robóticas e frias na sua constante busca por poder. Astrid Bergès-Frisbey (a sereia de Piratas do Caribe: Navegando em Águas Misteriosas) interpreta a misteriosa maga responsável por guiar Arthur em sua jornada. Apesar de não revelar muito sobre a personagem, a atriz utiliza bem sua linguagem corporal para dar vida à magia que a personagem emana. Djimon Hounsou e Aidan Gillen entregam performances divertidas e interessantes que, apesar de pouco desenvolvidas, conseguem gerar empatia entre o público e seus personagens.

Rei Arthur: A Lenda da Espada | Crítica

Apesar de todos os pontos positivos, a direção de Guy Ritchie acaba sendo também a origem dos problemas do filme. Ao abusar de suas técnicas, o diretor prejudica grande parte do desenvolvimento humano do filme. Cenas importantes como o crescimento de Arthur e a ida do protagonista à chamada Terra Sombria são resumidas a pequenos “videoclipes” com cenas curtas e de cortes rápidos. Por mais que Ritchie saiba utilizar essas cenas para passar a mensagem clara do que está acontecendo, isso priva o público de se aproximar mais do desenvolvimento dos seus personagens e até mesmo de se importar mais com seus destinos. Junte a isso um primeiro ato um tanto quanto confuso e arrastado e o filme ficará apenas com um visual e cenas de ação interessantes para prender seu público.

Rei Arthur: A Lenda da Espada | Crítica

Apesar de seus acertos e erros, Rei Arthur: A Lenda da Espada é um filme que diverte e cumpre seu papel de blockbuster com a personalidade e ousadia de Guy Ritchie. Apesar dos problemas, a história final se mostra interessante e concisa com seu universo. Resta saber se esse primeiro filme vai dar bons resultados a ponto de garantir uma vida longa ao rei. Afinal, a trama deixa ganchos para a construção de uma franquia no cinema que, se for bem feita, pode trazer bons lucros para o estúdio e uma repaginada no tão amado mito do Rei Arthur.

King Arthur: Legend of the Sword — EUA/ Reino Unido, 2017
Direção: Guy Ritchie
Roteiro: Guy Ritchie, Joby Harold, Lionel Wigram
Elenco: Charlie Hunnam, Jude Law, Eric Bana, Djimon Hounsou, Astrid Berges-Frisbey, Aidan Gillen, Tom Wu, Freddie Fox, Annabelle Wallis
Duração: 126 min

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