Devo ter sido um dos primeiros a escrever sobre comida coreana em Brasília. Esta cozinha ainda exótica para o paladar brasiliense só chegou ao comércio local nesta década e encontra um único representante: o restaurante Happy House, situado na praça de alimentação do segundo subsolo do Venâncio Shopping (ao qual ainda me refiro como 2000).

No Brasil todo, a cozinha sul-coreana é praticamente desconhecida. Afinal, a imigração data de período ainda muito recente (anos 1960) e se deu quase exclusivamente na capital paulista, onde se concentram sobretudo no bairro do Bom Retiro.

Foi Renata Jung que encorajou o pai e imigrante coreano, André, a incorporar pratos tradicionais da gastronomia sul-coreana no menu do Happy House. Era 2013 e Renata percebera o quanto os brasileiros se alvoraçaram em torno da cultura do k-pop, então representado pelo artista Psy, a reboque do hit-chiclete Gagnam Style, viralizado um ano antes na internet.

Cinco anos atrás, os pratos sul-coreanos da “casa feliz” eram exclusivamente servidos aos compatriotas, normalmente ligados à diplomacia. Hoje, o lugar passou a ser frequentado pela garotada de cabelos coloridos que cruzam o indicador com o polegar como sinal minimalista para o coraçãozinho que fazemos com as mãos.

Comer o quê?

Guilherme Lobão/Especial para o Metrópoles

Sopa de macarrão com frutos do mar e a indefectível pimenta-coreana: tempero sem concessões

 

Bem, a cozinha sul-coreana orbita em torno da pimenta-vermelha, iguaria que teria sido introduzida por consequência da invasão japonesa ao fim do século 16 – sem fontes bibliográficas muito seguras. Seu uso como condimento tem como resultado o símbolo nacional da Coreia: o kimchi. Prato resultante de guerra, uma vez que após se deparar com a terra arrasada, os coreanos viveram uma oferta muito grande de repolho (provavelmente de má qualidade). A título de sobrevivência, nasceria esse composto apimentado e fermentado de repolho, acelga, nabo (e hoje preparado com tudo quanto é verdura que se possa imaginar).

O kimchi é a primeira coisa que você recebe à mesa quando adere ao à la carte do Happy House, servido ao lado de alguns petiscos (amendoim melado, picles de nabo, legumes fritinhos, missoshiro e arroz).

Bem, antes vale contextualizar que o restaurante de Andre Jung servia um bufê a quilo desde 1997, no térreo do antigo Venâncio 2000, situado por entre as lojas de gemas e outros restaurantes abafados e com péssima circulação de ar. Parecia uma cantina. O self-service ainda é o maior filão, mas se traduz como uma mistureba de comida brasileira com generalidades orientais. Tudo muito bem feito também (vale notar). Por R$ 43,99 o quilo, é uma refeição generosa e barata.

Em 2013, ainda neste refeitório de cadeiras azuladas e mesas espremidas, a casa começava a servir os famosos churrascos coreanos (bulgogui, de carne bovina, e sam gyup sal, de barriga suína). O preparo de ambos era relegado ao próprio cliente, que recebia os insumos crus e uma chapa superquente na qual refogava as carnes, já muito bem temperadas sem dispensar a pimenta-vermelha.

Guilherme Lobão/Especial para Metrópoles

Sam gyup sal: barriga de porco em pimenta-vermelha refogada e servida com gergelim e cebolinha

 

Agora, após a enorme reforma do Venâncio, o Happy House usa outro tipo de chapa, pois não pode mais gerar fumaça. O melhor é mesmo pedir para que se venha pronto, pois a cozinha do local sabe bem o que faz – diferentemente de nós, leigos, que só usaríamos a chapa para fins de mise-en-scène no Instagram.

O cardápio do Happy House ficou repleto de belíssimos pratos originários da cultura que representa, a exemplo do mandu (pasteizinhos semelhantes ao gyoza japonês, mas fritos em óleo, servidos em porção de seis a R$ 30) ou o kân pun gui, frango empanado coberto por gergelim e molho agridoce apimentado (R$55 a porção, que consta entre os pratos principais).

Tido como porta de entrada para a cozinha coreana (recomendado para iniciantes pouco aventureiros) consta o bibimbap. Numa tigela quente, vai à mesa a combinação de arroz sob legumes, carne moída temperada e um ovo frito com gema mole. Como comer? Pegue o jeotgarak (hashi) e misture tudo. Delicie-se. Comida simples, mas nunca simplória. Tempero para lambuzar a alma.

Aquele mesmo mandu da entrada, antes de exposto à fritura, também pode ser cozido no caldo de legumes com nhoque de arroz e ovo. Esta é a receita da famosa sopa de Ano-Novo (R$52), um prato comemorativo do Seollal, o primeiro dia do calendário coreano (que em 2019 caiu em 5 de fevereiro).

O kimchi também vai aparecer ao longo de todos os mais de 30 preparos tradicionalistas do menu, em porções suficientes para alimentar duas, três ou mesmo até quatro pessoas: há sopa (com tofu) e  “risoto” (com presunto e ovo). No rol dos meus favoritos, estão o sam gyup sal (com as tiras de porco em bastante pimenta, a R$ 90) e o macarrão ensopado no caldo de frutos do mar (R$ 62). Este último apresenta alguma irregularidade no cozimento da lula e dos mexilhões.

Pode ser que algumas visitas sequenciais apontem para uma cozinha com pouca amplitude na paleta de sabores. A sensação de que “tudo tem o mesmo gosto” decorre muito do conservadorismo da clientela, habituada a não sair daqueles dois ou três pratos mais marcantes. Aprendi que arriscar no Happy House na maioria das vezes compensa. Ainda não consigo digerir muito bem o macarrão de fécula de batata-doce (iguaria também muito praticada pelos demais Tigres Asiáticos e pela gastronomia tailandesa).

O público aqui diversificou e, de Gangam Style até hoje, reconhecemos o restaurante pela autenticidade segundo a qual exprime não só a cozinha de seu povo como participa de uma cultura riquíssima que não precisou se gourmetizar, apenas se reconhecer e se fazer conhecida tal como é, ainda que a partir dos auspícios da indústria cultural. Quer me fazer feliz? Leve-me ao Happy House.

Restaurante Happy House
No Venâncio Shopping, segundo subsolo, praça de alimentação. Tel: (61) . 3322-0177. De segunda a sábado, das 11h às 21h. Domingo até 15h. Estacionamento pago. Desde 1997

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