Com o fim do prazo para as convenções partidárias, o Distrito Federal tem seis candidatos confirmados na disputa pelo governo. Concorrem ao Palácio do Buriti a governadora Celina Leão (PP), o ex-governador José Roberto Arruda (PSD), o presidente do Iphan licenciado Leandro Grass (PT), o ex-secretário-executivo do Ministério da Justiça Ricardo Cappelli (PSB), a deputada distrital Paula Belmonte (PSDB) e o advogado Kiko Caputo (Novo).
Apesar das candidaturas definidas, o cenário eleitoral ainda pode mudar até outubro. A crise do Banco Regional de Brasília (BRB), os problemas jurídicos de Arruda e a divisão no campo progressista são fatores que devem influenciar a percepção do eleitorado nos próximos meses.
Celina Leão começa a disputa com vantagens por ocupar o cargo e ter visibilidade. Ela pode apresentar as realizações da gestão e conta com o apoio da estrutura política construída pelo antecessor, Ibaneis Rocha (MDB). Por outro lado, herda o desgaste da administração, principalmente em relação ao BRB. Arruda possui capital eleitoral e identidade política consolidada em parte do eleitorado, surgindo como alternativa no campo conservador e concorrente direto de Celina. No entanto, enfrenta uma situação jurídica que pode ser decisiva.
No campo progressista, o PT lançou Grass, considerado o nome mais competitivo da esquerda, mas ele enfrenta a concorrência de Cappelli, que começou a campanha antes da consolidação da candidatura. Caputo e Belmonte se apresentam como opções de centro em meio à polarização.
A crise no BRB
O BRB enfrenta uma crise financeira após a revelação de fraudes investigadas pela Operação Compliance Zero, da Polícia Federal. As irregularidades envolvem operações com o Banco Master e um prejuízo estimado em cerca de R$ 12 bilhões. O banco não divulgou os balanços financeiros de 2025. O prazo para a publicação do balanço anual venceu em 31 de março, e o BRB informou que aguarda a conclusão de auditorias e tratativas com reguladores.
Para recuperar o banco, Celina fechou um acordo no Supremo Tribunal Federal (STF) que prevê uma operação de crédito de R$ 6,6 bilhões junto ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC). O acordo ainda não teve resultados efetivos e não há previsão para os recursos entrarem no caixa da instituição, o que aumenta o risco de liquidação do banco.
O mestre em Ciências Políticas, professor doutor Gustavo Javier Castro, avalia que a condição do banco deve ser tema central nas campanhas. Se o acordo não for concretizado antes das eleições, Celina terá que explicar por que a solução anunciada não produziu resultados. Uma liquidação teria consequências graves, pois o BRB é visto como um patrimônio do Distrito Federal. A crise poderia gerar insegurança entre clientes, servidores e empresários, além de questionamentos sobre o uso de recursos públicos para cobrir prejuízos.
Castro diz que uma queda nas intenções de voto de Celina é plausível, mas o impacto depende de fatores como a proximidade do episódio com a eleição e a capacidade da oposição de transformar a crise em desgaste político. Uma atuação transparente da governadora poderia limitar os danos, enquanto uma postura defensiva tenderia a ampliá-los.
Arruda e a Lei da Ficha Limpa
Arruda estava inelegível desde 2014 por improbidade administrativa, em processo ligado à Operação Caixa de Pandora, de 2009. Com as mudanças na Lei da Ficha Limpa, o teto de inelegibilidade para condenações em múltiplos processos passou a ser de oito anos a partir da condenação em segundo grau. O STF analisa os casos dos políticos enquadrados na norma, e o julgamento está suspenso após pedido de vista do ministro Gilmar Mendes. A relatora, ministra Cármen Lúcia, e o ministro Luiz Fux votaram pela inconstitucionalidade de dispositivos centrais da reforma. A legislação atual favorece a interpretação de que Arruda recuperou a elegibilidade, mas uma decisão contrária da Corte pode comprometer a candidatura.
Para Castro, uma eventual retirada de Arruda mudaria o cenário político. Celina seria a principal beneficiária, pois parte dos eleitores dele poderia migrar para a governadora por proximidade ideológica. Essa transferência, porém, não seria automática. Alguns eleitores poderiam interpretar a exclusão como injustiça e optar por outro candidato conservador, anular o voto ou se afastar do processo. O comportamento de Arruda seria decisivo, com um apoio explícito a outro nome orientando parte do eleitorado. A disputa pela segunda colocação, especialmente para Grass, ganharia mais importância.
Racha na esquerda
A manutenção das candidaturas de Grass e Cappelli mostra a dificuldade de unidade na esquerda. Ambos disputam o mesmo eleitorado e buscam vincular suas candidaturas ao projeto nacional de centro-esquerda. A divisão impede que o campo progressista concentre votos para chegar ao segundo turno. Com Celina e Arruda nas primeiras posições, a fragmentação faz com que os progressistas disputem entre si um eleitorado limitado. Há também a divisão de recursos, tempo de propaganda e apoios partidários, o que dificulta a construção de uma narrativa comum sobre temas como transporte, saúde e a crise do BRB.
