Trigo: colheita avança e clima no RS ameaça preços da safra
Paraná já colhe parte do cereal com boa qualidade, enquanto chuva excessiva no Rio Grande do Sul acende alerta entre produtores
A colheita da nova safra de trigo começou a avançar no Paraná nesta última semana de agosto de 2026, ampliando aos poucos a oferta do cereal no mercado interno, enquanto o excesso de chuva no Rio Grande do Sul preocupa produtores e pode limitar a queda esperada nos preços. A informação é do Portal do Agronegócio, que ouviu o analista Elcio Bento, da Safras & Mercado.
O momento é sensível para quem depende do trigo no dia a dia, seja produtor rural, moinho ou trading. Isso porque, apesar de a colheita normalmente empurrar os preços para baixo à medida que aumenta a oferta, esse efeito ainda não se confirmou de forma ampla. Compradores e vendedores seguem em compasso de espera, atentos ao resultado real das lavouras antes de fechar negócios maiores.
O que muda para quem produz e compra trigo agora
No Paraná, apenas 1% da área plantada havia sido colhida até 21 de agosto, segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Ainda assim, 93% das lavouras do estado estavam classificadas em boas condições, o que alimenta a expectativa de uma colheita de qualidade nas próximas semanas.
O preço de referência no estado ficou em torno de R$ 1.480 por tonelada, mas já reflete negociações voltadas para a safra nova. Nos Campos Gerais, os valores oscilaram entre R$ 1.400 e R$ 1.450 por tonelada, dependendo do prazo de entrega, enquanto no Norte do Paraná as propostas para setembro giraram perto de R$ 1.400.
Considerando os oito principais estados produtores do país, a Conab registrou 6,7% da área nacional colhida até a mesma data. O ritmo ainda inicial explica por que os preços seguem sustentados mesmo com a expectativa de mais oferta chegando ao mercado.
Chuva no Rio Grande do Sul é o principal ponto de atenção
Enquanto o Paraná caminha para uma colheita favorável, o cenário no Rio Grande do Sul preocupa. O excesso de chuva, combinado com nebulosidade persistente e pouca incidência de radiação solar, aumenta o risco de doenças fúngicas nas lavouras gaúchas, ainda de acordo com o levantamento do Portal do Agronegócio.
Na prática, isso pode comprometer não só a quantidade de trigo colhida, mas também a qualidade do grão, afetando indicadores usados pela indústria, como peso hectolítrico e força do glúten. Quando isso acontece, cresce a diferença de preço entre o trigo de qualidade superior, destinado à moagem, e os lotes de padrão inferior, direcionados à alimentação animal.
No mercado gaúcho, o trigo disponível de padrão considerado normal foi negociado perto de R$ 1.350 por tonelada, enquanto lotes de qualidade superior chegaram a R$ 1.400. Já as indicações para a safra nova no porto ficaram próximas de R$ 1.260 por tonelada, patamar mais baixo, mas que ainda não anima os produtores a vender antecipadamente.
Câmbio e trigo argentino também entram na conta
Do lado externo, o trigo argentino, um dos principais fornecedores do cereal ao Brasil, foi cotado próximo de US$ 250 por tonelada. Esse valor costuma pressionar o preço interno, já que o produto vizinho compete diretamente com o trigo nacional.
O dólar cotado ao redor de R$ 5,15, porém, reduz parte desse efeito. Com o real mais valorizado, a conversão do trigo argentino para reais fica menos custosa, o que barateia relativamente o produto importado e ajuda a explicar por que a valorização externa não se traduziu integralmente em alta no mercado brasileiro.
Segundo Bento, à Safras & Mercado, essa combinação de câmbio e cotação internacional é um dos fatores que os moinhos e tradings monitoram de perto antes de definir volumes de compra para os próximos meses.
O que observar nas próximas semanas
Produtores de trigo no Paraná devem acompanhar o ritmo da colheita e a confirmação de produtividade nas próximas semanas, já que esse é o fator que pode intensificar a pressão de baixa nos preços do estado. Quem ainda não vendeu a produção tem argumento para aguardar mais clareza antes de fixar contratos.
No Rio Grande do Sul, o alerta é para o clima. Produtores devem monitorar previsões de chuva e adotar, quando possível, manejo preventivo contra doenças fúngicas, já que perdas de qualidade podem reduzir o valor recebido pelo grão mesmo que o volume colhido não caia tanto.
Para moinhos e compradores, a orientação que emerge do comportamento do mercado é não antecipar grandes volumes de compra até que produtividade e qualidade estejam mais claras, tanto no Sul quanto no restante do país. O Portal do Agronegócio não trouxe estimativa de prazo para essa definição, e não há indicação oficial sobre quando o quadro deve se estabilizar. O acompanhamento semanal da colheita pela Conab segue sendo a referência mais confiável disponível até o momento.
Fontes consultadas
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