Em um ano de Copa do Mundo de futebol, os fabricantes de TVs estão enfrentando o desafio de lidar com o aumento dos custos de produção devido ao salto nos preços dos chips de memória. A indústria está negociando com os fornecedores desses chips, cujo peso no custo de produção dobrou nos últimos meses. Acredita-se que o aumento dos preços finais é inevitável e pode ficar entre 10% e 15% neste primeiro semestre.
A projeção é da chinesa TCL, a maior fabricante de TVs do mundo. Como resultado de negociações globais, a empresa conseguiu amortizar parte do aumento dos custos de memória nos países onde opera, de acordo com Nikolas Corbacho, Gerente Sênior de Produto no Brasil. “No segundo trimestre, os reajustes dependem de novas negociações”, afirma.
Espera-se que o aumento dos preços das TVs coincida com o interesse do consumidor por novas telas para assistir à Copa do Mundo. Segundo a NielsenIQ, nas Copas de 2014 e 2018, as vendas de TVs começaram a crescer no final de abril e atingiram seu pico em maio.
A capacidade de memórias RAM dos atuais aparelhos de TV é o dobro da instalada em notebooks de configuração intermediária. Uma TV de 65 polegadas exige de 16 a 32 Gigabytes (GB) de memória no padrão mais recente, o DDR5, informa Corbacho.
Enquanto os fabricantes de computadores buscam oferecer máquinas com configurações mais simples e menos chips de memória, no segmento de TVs o chamado “downgrade” não é viável, afirma o executivo da TCL Semp. “Hoje não há planos de alterar configurações porque o ‘hardware’ precisa daquela memória específica para o funcionamento do display [tela]”.
Como resultado, a participação dos chips de memória nos custos de produção das TVs mais que dobrou. “Em uma TV pequena, com telas de 32 a 43 polegadas, o custo da memória representava 13% e subiu para 28%. Já em TVs maiores, de 55, 65 e 75 polegadas, o custo representava 11% e passou para 21%”, informa o fundador do Grupo MK, Giovanni Cardoso.
De acordo com Cardoso, o repasse dos custos de memória para as TVs é inevitável, dada a margem de lucro apertada do setor. “Televisão é uma categoria que dá prejuízo pra todo mundo”, diz. “É uma categoria que precisa ter o repasse integral, senão o prejuízo vai aumentar ainda mais”.
Este ano, o Grupo MK aumentará a produção de TVs para mais de 600 mil unidades, contra 450 mil em 2025. A meta é alcançar de 7% a 8% de participação de mercado, ante 6% em 2025. “Somente com TVs, saímos de um faturamento de R$ 430 milhões em 2025 e vamos a R$ 810 milhões em 2026”, projeta Cardoso. “Este é um ano de vender TV e, normalmente, o primeiro semestre é bem mais forte”, afirma.
Até agora, o consumidor brasileiro não sentiu os impactos dos preços de memória nas TVs no varejo. Na verdade, os preços estão caindo. No acumulado do ano até 8 de fevereiro, o preço médio das TVs caiu 4,7% em relação ao mesmo período de 2025, segundo a NielsenIQ.
Essa queda de preço é devida a fatores como a acirrada disputa de preços nos segmentos de entrada e ao maior volume de promoções na categoria, explica Mateus Rabelo, Gerente Sênior para as categorias de eletrônicos e duráveis da NielsenIQ no Brasil. “Apesar da queda no preço médio, não podemos descartar o efeito que o aumento nos custos com memória poderá ter sobre a categoria”, pondera.
Em 2025, as vendas de TVs da indústria ao varejo cresceram 3% para 14 milhões de unidades – uma desaceleração significativa em comparação com o crescimento de 14,3% no ano anterior, de acordo com a Associação Nacional de Fabricantes de Produtos Eletroeletrônicos (Eletros).
Já as vendas no varejo cresceram 6,6% em unidades e 4,8% em faturamento, no ano passado, em comparação com 2024, segundo a NielsenIQ.
Em 2026, com o estímulo da Copa do Mundo de futebol e a popularização dos serviços de streaming de vídeos, a Eletros projeta um crescimento entre 5% e 10% nas vendas de TVs no país.
Na Copa do Mundo de 2022, realizada em novembro, as vendas de TVs ao consumidor no país cresceram 13,7% em unidades e 14,9% em receita, em relação a 2021, segundo a NielsenIQ.
No mercado global, a previsão dos analistas não é tão otimista, especialmente por causa dos preços das memórias. Este ano, a expectativa é de estagnação nas unidades de TVs vendidas no mundo, após uma ligeira queda de 0,1% em 2025, projeta a consultoria Counterpoint Research.
Bob O’Brien, Diretor de Pesquisas da Counterpoint Research, nota que o impacto do custo da memória não é “tão severo em TVs quanto em outros dispositivos” como celulares e computadores, mas afirma que o reajuste “não é desprezível e anulará o que, de outra forma, seria um ano de crescimento” nas vendas de televisores.
Diante do salto nos preços das memórias, iniciado no terceiro trimestre de 2025, os fabricantes que atuam no Brasil adiantaram suas compras para estocar os componentes até o final de março.
A Philco também se antecipou com a compra de matéria-prima junto aos seus fornecedores e, até o momento, “não realizou reajustes de preços de televisores para os clientes motivados pelo aumento dos custos de chips de memória”, diz Amanda Urzum, Diretora Comercial de áudio e vídeo da Philco.
A escalada nos preços das memórias reflete a mudança de foco dos grandes fabricantes de semicondutores para a produção de chips de memória mais robustos, com maior margem de lucro, para servidores de inteligência artificial. No entanto, segundo Corbacho, da TCL Semp, os fornecedores precisam equilibrar a oferta para não perderem seus principais clientes em TVs, celulares e computadores.
Corbacho afirma que não houve retração nas vendas de TVs neste início de ano, mas diz que há incertezas sobre os próximos meses. “O grande receio do varejo é não perder esse ritmo de vendas até o fim do ano”, afirma. E apesar de uma cotação do dólar favorável à importação de chips de memória, no momento, a taxa de juros alta é um obstáculo para as vendas. “O varejo tem uma dependência muito grande no parcelamento”, observa o gerente sênior da TCL S
