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Brasil pode ganhar com crise no Irã

Distante mais de 10 mil quilômetros de Teerã, o Brasil pode se transformar em um dos potenciais beneficiários do conflito iniciado no Oriente Médio. Isso ocorre após os Estados Unidos e Israel realizarem ataques ao Irã no sábado, 28 de fevereiro.

Analistas ouvidos pela BBC News Brasil avaliam que o Brasil seria beneficiado porque, na segunda-feira, 2 de março, o Irã anunciou o fechamento do Estreito de Ormuz. Por esse estreito passa cerca de 20% da produção global de petróleo.

Nesse cenário, países da Europa e da Ásia, como China, Índia e Japão, precisariam buscar novas fontes de petróleo bruto. Essa busca poderia alavancar as exportações do Brasil, que desde 2024 tem o petróleo como principal item de exportação, à frente da soja e do minério de ferro.

Os especialistas acreditam que o Brasil está bem posicionado para atender uma eventual nova demanda. O país já tem uma rede estruturada de portos e oleodutos para exportação, e a rota para esses mercados não passa por pontos sensíveis como o Estreito de Ormuz.

Eles ponderam, no entanto, que o Brasil só se beneficiará se a situação se prolongar pelas próximas quatro semanas ou mais. Outra condição é que o país consiga ampliar sua produção para além dos patamares atuais.

A crise e a oportunidade

A crise atual começou no sábado, 28 de fevereiro, depois que Estados Unidos e Israel iniciaram uma série de ataques a alvos iranianos. Os ataques atingiram prédios oficiais e alvos civis e mataram o então líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei. Pelo menos outros três oficiais do alto comando iraniano também teriam morrido.

O presidente norte-americano, Donald Trump, alegou que os ataques visavam eliminar “ameaças iminentes do regime iraniano”. Segundo ele, o Irã tentou reconstruir seu programa nuclear e continua a desenvolver mísseis de longo alcance.

O regime iraniano rebate as acusações e afirma que seu programa nuclear tinha fins pacíficos. Em resposta aos ataques, o Irã disparou mísseis contra Israel e instalações norte-americanas em países do Golfo Pérsico.

Na tarde de segunda-feira, um porta-voz da Guarda Revolucionária do Irã anunciou o fechamento do fluxo de navios pelo Estreito de Ormuz. Essa passagem tem cerca de 33 quilômetros de largura e é vital para o transporte de petróleo produzido por países árabes, Iraque e pelo próprio Irã.

Matt Smith, consultor da empresa de análise de dados Kpler, afirma que os maiores compradores do petróleo que passa por Ormuz são países asiáticos. “A China, sozinha, consome metade de todo o petróleo produzido no Oriente Médio. Se a situação se prolongar, a China vai ter que procurar alternativas. O Brasil está bem posicionado”, explicou.

Dados do governo brasileiro mostram que a China já é o principal destino do petróleo exportado pelo Brasil. Em 2025, o Brasil exportou US$ 44 bilhões em petróleo bruto para o mundo. Desse total, US$ 20 bilhões (45%) foram para a China.

O presidente do Instituto Brasileiro de Petróleo (IBP), Roberto Ardenghy, diz que ainda é cedo para estimar se a crise vai beneficiar a indústria brasileira. No entanto, se o cenário se agravar ou se mantiver, o Brasil pode ser um dos potenciais beneficiados.

“Nós não sabemos quanto tempo durarão os estoques estratégicos dos principais países. Calculamos algo em torno de três ou quatro meses. Se as coisas continuarem assim, países como o Brasil, Argentina, Nigéria e Guiné Equatorial vão despontar como fornecedores alternativos”, disse Ardenghy.

Matt Smith complementa que outros países, além da China, também poderiam procurar o Brasil para substituir temporariamente o petróleo bloqueado. “Quanto mais a crise se prolongar, mais preocupados os consumidores da Ásia e da Europa vão ficar. O Brasil, portanto, não se beneficiaria apenas vendendo para a China, mas também para a Europa”.

Capacidade de produção

Ardenghy alerta para um fator que pode limitar os benefícios para o Brasil: a capacidade de produção. Segundo ele, o Brasil produz, em média, 3,6 milhões de barris de petróleo por dia e exporta 1,6 milhão. O restante é consumido internamente.

Ele estima que, até 2029, o Brasil poderia aumentar sua produção para 4,2 milhões de barris diários com base nos projetos em andamento. Isso poderia levar o país ao posto de sexto maior produtor mundial.

No entanto, na conjuntura atual, o Brasil teria dificuldades para suprir demandas adicionais imediatamente. “Não tem como aumentar a exportação no curto prazo. A curva de crescimento da produção é gradual, podendo levar alguns meses ou anos”, ponderou Ardenghy.

Efeito misto sobre a economia

O potencial aumento do preço e da procura pelo petróleo brasileiro já afetou o mercado. As ações preferenciais da Petrobras subiram 3,57% entre sexta-feira e terça-feira, acompanhando o movimento de petroleiras no mundo todo.

A expectativa entre investidores é de que o aumento do preço do petróleo no mercado internacional eleve as margens de lucro dessas companhias.

Analistas e o governo brasileiro avaliam que a crise no Irã pode gerar efeitos mistos sobre o Brasil. Por um lado, o aumento no preço do petróleo pode elevar os dividendos que o governo recebe da Petrobras, já que a União é seu principal acionista.

Em 2024, último ano com dados disponíveis, o governo federal recebeu R$ 28,8 bilhões em dividendos da estatal. Um aumento nos lucros da empresa poderia significar mais recursos para os cofres públicos no futuro.

Por outro lado, um preço mais alto do barril de petróleo no mercado internacional pressiona os custos de combustíveis e derivados no mercado interno. Isso poderia ter um efeito inflacionário, impactando o poder de compra da população e os custos de produção em diversos setores da economia nacional. O governo teria que administrar esse equilíbrio entre ganhos com exportação e aumento de custos internos.

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Sobre o autor: Sofia Almeida

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